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Posts Tagged ‘25 de Abril’

«Toda a gente é interessante se a gente souber ver toda a gente
Álvaro de Campos

Interiorizámos o sebastiânico nevoeiro, bruma que sempre nos envolveu a esperança e, assim, “vamos andando”. “Vamos andando…”, expressão do nosso dia a dia que retrata o ramerrão que nos oprime.

A vida é assim… Pois é, responde o outro, afogado na sua ronceirice.

E neste nosso fatal fatalismo, já nem vamos andando, deslizamos, escorregamos ao sabor da inércia. “O que é que se há-de fazer?…

Somos assim ou desejam-nos deste modo; se assim fossemos, como justificar o desabrochar das nossas capacidades e o reafirmar da nossa personalidade quando, noutras paragens, somos chamados a pôr à prova os nossos méritos?

Afogamos a nossa auto-estima no “lá terá que ser”, quando não no desleixo que expressa o “quero lá saber” ou no enjoado, “pois, pois…

Deixámos de assumir as convicções que nos restam; de ombros descaídos caminhamos para uma auto-castração que leva ao cinzentismo que desagua na neutralidade, lugar seguro que permite cair para a direita ou esquerda, conforme soprem os ventos, podendo, assim, mais facilmente, rejubilar por oportunismo ou vaidade com as vitórias dos clubes ou partidos que estejam na mó de cima. Exultam-se as virtudes alheias porque deixámos de acreditar em nós próprios?

Bons, valorosos, foram os nossos antepassados. Onde está o homem capaz de manejar a espada de D. Afonso Henriques? Onde?! Esse é que era destemido! E o Navegador?, imponente em Sagres sonhando “O globo mundo em sua mão”, como nos diz Fernando Pessoa.

Pobres de nós, tão mesquinhos frente aos nossos “egrégios avós”!

Ninguém sabe onde pára a espada de D. Afonso, e nada nos permite crer que o Navegador tivesse estado em Sagres. Remetem-se, pois, os nossos feitos para um mítico passado, desvalorizando o presente.

No hoje que estamos vivendo, espezinha-se a inteligência, desvaloriza-se a criatividade, abafa-se tudo o que nos possa enaltecer para não termos a veleidade de assumir as nossas capacidades para intervir e fazer mudar o rumo da história, sabendo-se como se sabe, ou se deveria saber, que os grandes saltos históricos tiveram sempre o povo como seu principal intérprete. Um perigo!

A desmentir toda esta apatia publicitada surge a quotidiana realidade. Em 2012 só em Lisboa saíram à rua cerca de duas manifestações por dia e por todo o país a PSP contabilizou mais de três mil manifestações de descontentamento e reivindicação.

Pretendem-nos um povo de mendigos, gente que viva da caridade que avilta e oprime e se sente incapaz de ter em mãos o seu destino. Enganam-se!

O 25 de Abril e o 1º de Maio vão mostrar que este Povo está vivo e actuante e continua a arvorar a bandeira da dignidade.

Cid Simões

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Na efervescência do 25 de Abril um dos meus vizinhos exibia ostensivamente um enorme poster da Vieira da Silva frente à porta de entrada da sua residência, exaltando o 25 de Abril. Saudava-me efusivamente e fui convidado algumas vezes para tomar café em sua casa onde os livros de autores progressistas se mostravam a despropósito. A contra-revolução foi-se instalando e após uma das suas guinadas mais violentas para a direita o poster deu lugar a uma natureza-morta. O hall de entrada moldou-se a um alinhamento clássico e os novos convivas apresentavam uma postura formal. Via-o sempre a correr e se nos cruzávamos lançava-me um “olá” apressado e displicente. Não muito tempo depois todas as manhãs uma viatura do Estado com motorista fardado vinha buscar sua excelência, o senhor engenheiro. Deixei de o ver quando foi ocupar um alto cargo numa organização bancária algures em África.

Um caso que nada tem de original. Quantos mais casos, cada um de nós, não terá para contar!… O senhor engenheiro havia aderido ao PS, covil de arrivistas e contra-revolucionários.

Os tempos são outros e pouco Seguros para os boys dos partidos das alternâncias. A luta para manter ou conquistar um “tacho” é cada vez mais renhida, por isso, os gurus andam aturdidos, e porque individualistas, encontram-se tresmalhados não vislumbrando qual o redil que futuramente os poderá albergar. Dispondo de bom pasto a manada proliferou acotovelando-se em espaços partidários cada vez mais exíguos. E, qualquer que seja o espectro partidário no poder, afundar-se-ão com o batelão dos favores, salvando-se os mais matreiros.

As possíveis eleições antecipadas espalham a intranquilidade, enevoado o futuro politico-partidário dessa classe rapace, não se vislumbrando que mestre-sala irá repartir o bolo após os resultados se eleições houverem. E porque, como deixou explicito o “democrata” Winston Churchill de que “os fins justificam os meios”, os candidatos à rapadura do tacho não deixarão de utilizar todos os meios dos menos escrupulosos aos mais indignos para satisfazer a gula que se apresenta de expressão bulímica, epidémica ou congénita. A fauna colada ao poder afundar-se-à com o batelão dos favores.

Os gurus representam uma ampla mancha flutuante disponível e servil extremamente frágil e vulnerável e, ao mesmo tempo, moldável a qualquer situação por mais ambígua ou pouco recomendável a gente com vergonha.

Estes tempos conturbados vão-lhes exigir as mais sofisticadas acrobacias de baixeza, dolorosos golpes de rins, o recurso a indumentárias recicladas e movimentações lentas mas seguras próprias aos experimentados camaleões. Olhar de perspectiva de grande amplitude, movimentos subtis, mudando de aparência ou opiniões, de acordo com as circunstâncias em função de interesses e conveniências pessoais.

Há que repensar tudo, alargar o leque de contactos; fazer-se encontrado, sugerir apoios, evitando comprometer-se abertamente para deixar o espaço indispensável às mudanças de última hora. Estes tempos estão-lhes a exigir um trabalho intenso, está em jogo o futuro próximo, indispensável para garantir a satisfação de encargos assumidos e um estilo de vida dificilmente conseguido de outro modo.

Exercitar as genuflexões, os salamaleques, os sorrisos-esgar e o não menos nojento lamber de botas.

Cid Simões

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Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Chico Buarque

Cansados, há os que blasfemam quanto ao caminho pedregoso que têm trilhado, não vislumbrando saída que leve à concretização dos seus sonhos; desiludidos, baixam a guarda, sentam-se remoendo uma cólera seca, inócua como a pólvora que também assim se designa.

Gostavam alguns que, depois de terem entoado belas canções, os que detinham o poder deixassem os seus obscenos privilégios e mui respeitosamente entregassem o fruto do saque, desculpando-se pelos crimes cometidos e zarpassem para não mais voltar; não pensaram tão-pouco que ao se retirarem para longínquas paragens, instalando-se em mansões-trincheira, deixariam os seus peões, valetes e trunfos a cantarem connosco que “o povo unido jamais será vencido” para que, matreiros, minassem o futuro da fraternidade desejada.

Os que supuseram que seria possível o avanço sem paragens ou recuos e consequentes sofrimentos têm sido idealistas no mais negativo sentido do termo e, porque sem ideal, confundem os seus desejos com a realidade.

Entretanto, embora enfraquecido, o 25 de Abril foi criando os seus anticorpos nas consciências que todos os dias se reforçam, a nível individual e colectivo; são as greves constantes raramente publicitadas, manifestações localizadas de pequenos grupos, reivindicando o direito à saúde, exigindo os salários em atraso ou lutando contra os despedimentos ou, ainda, impedindo o roubo das máquinas indispensáveis ao seu ganha-pão. E destas lutas, aparentemente isoladas, tecem-se movimentos de massas que atingem o seu clímax em greves gerais, manifestações a nível nacional, como jamais haviam sido vistas e, cuja meta e referências continuam a ser “as portas que Abril abriu”.

O 25 de Abril é semente que se renova a cada instante, a esperança que a todo o momento renasce; só os que perdem a coragem e com ela o sentido do futuro se insurgem contra os jovens, tomando-os como alvo das suas frustrações e desaires. E porque pela incapacidade que manifestam em continuar a caminhada deixaram de ter confiança em si próprios. Os cépticos vilipendiam as gerações vindouras.

A realidade vivida e sofrida pela esmagadora maioria dos assalariados, laborando a vários níveis de competência, é em si mesma o potencial testemunho de que as novas gerações tomarão forçosamente em mãos as rédeas do seu futuro, rompendo caminhos que não podemos prever.

Os desiludidos não compreenderam que o 25 de Abril não foi meta, mas caminhada (por trilhos minados de ciladas); recusam-se a compreender que a liberdade não será nunca um elemento estático; ela, liberdade, é a dinâmica da própria sociedade, a energia e o motor das mutações históricas.

Há que estar atento, porque como escreve Isabel Rauber “Não existe um todo predeterminado final, a que tenhamos de “chegar”, nem um tempo e um caminho já fixados para isso; vai sendo delineado entre os diversos actores populares com a sua participação, os seus ritmos e os seus tempos.”

Cid Simões

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25 de Abril

25 de Abril é uma data do calendário, para Portugal e não só, é um marco histórico.

Representa ideias e valores como a liberdade, a justiça, a educação, a saúde, igualdade de oportunidades e paz.
Escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen;

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

38 anos após uma viragem de regime ditatorial fascista, Portugal encontra-se actualmente de mão estendida aos grandes consórcios financeiros mundiais. Contratam empréstimos colossais em prazos muito curtos.
Para os pagar, o actual governo PSD/CDS (direita política portuguesa que fica sempre cheia de brotoeja nas comemorações do 25 de Abril) opta politicamente pelo corte das pensões e reformas, nos rendimentos mensais das famílias, carrega na carga fiscal dos particulares e empresas, num País onde o salário/dia é metade da média da União Europeia, segundo o Eurostat.
Facilita os despedimentos e diminui as indemnizações por mútuo acordo, num País onde existem 7.500 casais sem salário, e com uma perspectiva de tempo mais reduzida, no que toca ao subsídio de desemprego.
Corta nas comparticipações dos medicamentos, transfere o Serviço Nacional de Saúde para o sector privado, transformando a saúde num negócio, ficando aos critérios da rentabilidade. O utente passa a cliente, passa a haver, doentes rentáveis e doentes não rentáveis. Por curiosidade, o actual ministro da saúde, é um dos co-fundadores de um dos maiores grupos de saúde privada.

Hoje, Portugal menos soberano do que já fora, sem poder emitir moeda própria e sem taxas alfandegárias, fica ainda mais desprotegido aos gigantes da especulação financeira.
As elites portuguesas, patriotas que são, transferem grandes quantidades de capital para offshores, contribuindo zero para o Estado Português. Dinheiro ganho na exploração do trabalho.
Alteram os domicílios fiscais para fora do território português. Como por exemplo, empresas que já pertenceram ao Estado, hoje na mão de accionistas privados.

Governo e deputados desta democracia de alterne – PS, PSD e CDS, são na verdade, empregados destes grupos financeiros e dos grandes escritórios de advogados.
Portugal perde milhões de euros todos os anos em processos judiciais, pelos múltiplos alçapões com que estes empregados minam a legislação portuguesa.

Os que de facto viveram e vivem acima das possibilidades, não querem pagar a sua quota-parte, pagando a maioria da sociedade a sua contribuição e a destes pantomineiros.
Esta lógica está obviamente errada e a história ensina-nos que de tempos em tempos existem correcções.
A questão que se coloca é quando e como?

#Zorze

Publicado em simultâneo no Extrafísico.

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LEVANTE-SE O RÉU!

E o réu levantou-se com o aprumo e a dignidade das consciências tranquilas.

Jovem, tinha no olhar a limpidez dos íntegros e a altivez dos lutadores.

 – Nome, idade, filiação?

– Chamo-me Abril, nascido em 25 de 1974, filho da opressão e da miséria.

– Sabe do que é acusado?

– Confirmo, meritíssimos juízes que sei e me orgulho da sublime culpa.

Devolvi à flor a cor e o sentido, espalhei por todas o aroma inolvidável, iluminei-as com o sol da vida e da esperança, quebrei-lhes as algemas e as grades dos cárceres da tristeza, e as pétalas abriram-se libertas e as crianças sorriram. Ao vento dei a direcção e o pólen que fecundou a dignidade de néctar já esquecido

Fez uma pequena pausa e num tom calmo mas firme continuou:

Não sou herói nem mártir, mas a vida que em mutações constantes repele a cobardia e ao esgotar-se em sofrimento renasce impetuosa e firme, sugerindo de novo caminhos que só a bússola do sonho é capaz de encontrar.”

Os juízes entreolham-se; na assistência, uma jovem de beleza etérea, frágil embora, como tudo o que é puro, segue, letra a letra, o discurso vigoroso. É a Liberdade, sua irmã. Filha também de todas as quimeras, sem as quais a existência não tem sentido, sabendo-se que a nossa vida está orientada para o futuro que Lhe pertence.

A Liberdade, irreprimível, intemporal, questionou:

Porquê e em nome de quem nos julgam? Tempo perdido é o vosso. Sou parte dos subjugados pela ignorância quando dela consciência tomam e se libertam. Corporizo os seus anseios colectivos no Maio 1º, e posso renascer, e renasço sem dia ou mês anunciados.

Não se julga o sol e o luar e o bom-senso não questiona as estrelas, a brisa das manhãs ou o crepúsculo.

Em que instância se encontram a cobiça e a arrogância, irmãs daninhas, subvertendo indecisos, fracos e frustrados, arregimentando-os em legiões de corruptos?

Dado que libertas se encontram, decerto deixaram como caução a gula esfomeada que já vos subornou!

Abril retomou a palavra:

Um mês é sempre precedido de outro mês e de outros tantos como a eternidade, da opressão nasceu sempre a revolta tão natural como a água nas fontes. Julgando-me arrastam na vossa acusação, Maio meu irmão, e nossa irmã Liberdade que me abraçaram nesse reencontro que a memória retêm.

Senhores jurados, meritíssimos juízes duma causa também vossa; lembrem-se das lágrimas de alegria, da festa, da fraternidade que a todos envolvi quando cheguei, da solidariedade reencontrada, das canções, da alvorada de esperança que, perdendo-se, vos perde!

E justiça foi feita:

Abril, Maio e a Liberdade foram condenados a jamais se separarem, a lutarem eternamente, a nunca se curvarem e a serem amados para todo o sempre pelos que exigem dignidade e pão.

E assim será!

Cid Simões

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# Zorze

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Hoje existem três boletins de voto a preencher.
A escolha faz-se para Câmara Municipal, Assembleia Municipal e Assembleia de Freguesia, num ano prenhe de actos eleitorais haverá quem se canse de se dirigir a uma Assembleia de voto, identificar-se, pegar nos três boletins, assinalar a escolha, dobrar, entregar e recolher a identificação, haverá quem ache que não vale a pena, haverá quem  ache que não votar é um acto legitimo de demonstrar o seu descontentamento.
No entanto o Poder Local Democrático foi uma das maiores conquistas de Abril, porque sim, ainda existem conquistas ganhas naquela madrugada, até aí os Presidentes de Câmara, Vereadores, os Regedores das Freguesias eram escolhidos entre os correligionários do Governo, membros de um partido único e não eleitos.
Aqui no Barreiro, a minha terra, o Presidente da Câmara Municipal era alternadamente alguém que representava a CUF ou a CP, só assim se percebe os terrenos dados à CUF que nunca foram pagos ou facto do Barreiro ser estrangulado em fatias por linhas de caminho de ferro, por exemplo.
Desde 1976 que as populações elegem os seus representantes, homens e mulheres que vão decidir se um espaço vai ser um empreendimento imobiliário, um jardim, um pavilhão desportivo ou uma escola, gente que vai decidir se é mais importante investir na reabilitação do Parque escolar ou na renovação da rede de água e saneamento ou em espectáculos com as estrelas da moda.
Muitos desses homens e mulheres trabalham nessas áreas depois de um dia de trabalho normal, em detrimento dos seus tempos livres e da sua vida familiar.
O Poder Local Democrático é o garante do rumo individual de cada Concelho, de cada Freguesia, de cada população.
Hoje, 2009, para além de todos os Isaltinos, Fátimas e Avelinos, vão a votos pessoas que se levantam de madrugada, depois de um vendaval, para ver quantas árvores estão partidas, que correm a pintar escolas, que partem a cabeça a ver como enquadram um orçamento curto a melhorar a vida da população.
Na maioria do Poder Local Democrático é assim, pequenas batalhas diárias.
As populações recorrem ás Autarquias nas mais variadas situações, são na sua maioria assuntos, causas, problemas, dependentes do Poder Central, questões tão abrangentes como a falta de equipamentos sociais, que as Autarquias procuram resolver, muitas vezes sem verbas, sem meios técnicos ou humanos.
As Autarquias colmatam vezes sem conta as falhas, o transporte para as escolas das crianças de povoações onde deixou de existir escola, a reparação de um Parque escolar deixado ao abandono durante décadas, a reabilitação de espaços urbanos criados pela falta de planeamento e pelo crescimento desmesurado e anárquico nas grandes áreas Metropolitanas na segunda metade do século XX, a reparação de parte da rede viária nacional, o estabelecimento de parcerias na área do emprego, da formação, do apoio social, da educação especial, do apoio a idosos, a doentes mentais, a associações e colectividades de cultura e recreio, a criação de actividades de ocupação para jovens e seniores, apoio ás forças de segurança, a associações de Bombeiros, a equipas desportivas, a disponibilização de terrenos e projectos para a construção de infra estruturas no campo da saúde, do ensino, da segurança social, o tratamento de águas residuais, a recolha de resíduos sólidos e urbanos, e tantas mais coisas que não cabem aqui.
Sou Autarca, pelo menos até hoje, hoje dia de eleições pego ás 6 da manhã, ontem carreguei eu e muitos mais, urnas de voto, arrumei mesas e cadeiras, montei cabines, hoje vou calcorrear vezes sem conta a dúzia de mesas de voto, retirar percentagens, dei a cara, o corpo ao manifesto, sujeito-me hoje ao sufrágio dos meus iguais.

 

#Ana Camarra

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