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Posts Tagged ‘Álvaro Cunhal’

   O capítulo 8 do livro «A verdade e a mentira na Revolução de Abril: A contra-revolução confessa-se», de Álvaro Cunhal, é dedicado ao 25 de Novembro. De forma objectiva, o livro do ex-secretário-geral do PCP põe a nu a história deste golpe militar contra-revolucionário que, 38 anos volvidos, continua a ser manipulada e branqueada por quantos têm como principal objectivo denegrir o PCP. Dada a sua extensão, o capítulo será publicado em três partes, na certeza de que será um valioso contributo para repor a verdade dos factos.

António Vilarigues

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 Iremos escrever, no dia 10 de novembro no Campo Pequeno, mais uma página na nossa grande e edificante história.

 São as fotografias que mais o identificam:
um Homem entre seus iguais.

 Recordá-lo é criar estímulos para continuarmos lutando.

Cid Simões

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«(…) os partidos reaccionários, pela natureza inconfessável dos seus fins, são os partidos da mentira.

Nenhum dos governos de direita e nenhum dos partidos seus componentes ousou dizer a verdade acerca dos objectivos da sua política. Todos os seus actos e todas as suas medidas foram e são apresentados com extenso rol de mentiras elaboradas, planeadas e sistematizadas. (…)

A mentira é parte integrante, constitutiva, intrínseca, permanente, da política dos governos de direita e dos partidos que nestes participam. Tornou-se uma prática que se insere com desfaçatez e cinismo na completa falta de escrúpulos morais desses governos e partidos.»

Estas palavras, escritas por Álvaro Cunhal em 1985 no seu conhecido ensaio «O Partido com paredes de Vidro», estão mais actuais que nunca.

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António Vilarigues

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«Um dos elementos que, na luta contra a ditadura, na revolução e na contra-revolução, conferiu ao PCP capacidade e contagiante confiança, foi o facto de, no seu programa e na sua acção, apontar uma ampla perspectiva histórica.

«O programa de um partido, que propõe uma transformação social profunda e libertadora, não pode ser confundido, e muito menos substituído, por uma plataforma de conjuntura ou um programa eleitoral. Nem a sua actuação política pode ter como objectivo torná-lo um colaborador da política de governos ao serviço do grande capital.

«Em Portugal, a institucionalização, em termos constitucionais, da contra-revolução, com a pretensão de que o sistema socioeconómico e o regime político são intocáveis e irreversíveis, coloca a necessidade de apontar claramente objectivos a curto, a médio e a longo prazo.

«A curto prazo: medidas urgentes, por vezes imediatas, para resolver problemas instantes. A médio prazo: a defesa e aprofundamento da democracia nas suas quatro vertentes. A longo prazo: que temporalmente pode ser mais próximo ou mais distante, a construção e edificação de uma sociedade socialista.

«E, sempre, a defesa da independência e soberania nacionais.»

Álvaro Cunhal, A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril (A contra-revolução confessa-se),
Edições «Avante!», Lisboa, 1999, p. 319

António Vilarigues

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Vivemos dias bravios e de bravura

Junho, mês de saudade, reflexão e luta. Mês de orgulho pelos homens que nos deixaram em Junho de 2005 legando-nos saber, integridade e esperança.

Vasco Gonçalves (3/5/1922-11/6/2005)
Álvaro Cunhal (10/11/1913-13/6/2005)
Eugénio de Andrade (19/1/1923-13/6/2005)

Álvaro Cunhal

[Desenho de Álvaro Siza Vieira]

DIZEM ALGUNS…

Dizem
alguns que tu
foste uma lenda arrancada
das páginas da história. Que a tua
palavra ardia
como uma tocha, às vezes
como uma lança cravada
na carne da ignomínia.
                                              Eu diria
apenas que foste
a encarnação dum sonho, o rosto
humano da utopia.

Albano Martins

O centenário do nascimento de Álvaro Cunhal está sendo comemorado em todo o país. E são tantas e sentidas as manifestações de apreço pelo que representa para todos nós que, mais do que um belo poema, damos-lhe a notícia de que continuamos a lutar com entusiasmo e confiança. Sabemos que é a melhor homenagem que lhe podemos prestar.

a Vasco Gonçalves

Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
também sabe que no verão pelas veredas
da cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esse eras tu: inclinação da água. Na margem
vento areias lábios, tudo ardia.

Eugénio de Andrade

O Comum da Terra

Recordar a sensibilidade de Eugénio de Andrade, reconhecendo a honestidade e o patriotismo de Vasco Gonçalves, amplia a sua dimensão de homem e de poeta.

«De tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada

Relendo Eugénio de Andrade saímos de sensibilidade reforçada para melhor apreciar Vasco Gonçalves, intelectual brilhante, lutador abnegado e de apego sem limites ao nosso povo.

Cid Simões

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A par de uma intensa actividade política revolucionária, Álvaro Cunhal desenvolveu, ao longo da sua vida, um apaixonado interesse por todas as dimensões da existência. Militante e dirigente comunista, sempre que as circunstâncias de todo não o impedissem praticava e convivia com as artes, a ficção literária e as artes plásticas, assim como é levado a confessar a sua paixão pela música. Ao mesmo tempo, manteve uma longa e intermitente reflexão sobre a arte e a estética. Quando publica o livro «A Arte, o Artista e a Sociedade», percebemos justamente que o seu pensamento sobre estética foi evoluindo ao longo da sua vida, os seus conceitos operatórios foram-se desenvolvendo e superando, até que o seu pensamento abandona qualquer mecânica instrumental na apreciação da arte.

Para Álvaro Cunhal, «arte é liberdade, é fantasia, é descoberta e é sonho (…). Matar a liberdade, a imaginação, a fantasia, a descoberta e o sonho seria matar a criatividade artística e negar a própria arte, as suas origens, a sua evolução e o seu valor como atributo específico do género humano».

Da Faculdade de Direito à Guerra Civil de Espanha

A vida de Álvaro Cunhal – aí incluídos os mais de 12 anos passados nas prisões fascistas – ficou marcada por uma intensa actividade intelectual, repartida por disciplinas e áreas das mais diversas, desde a elaboração de um notável corpo de pensamento histórico e teórico até à investigação e à análise históricas, à tradução e à criação literária, ao desenho e à pintura, à reflexão sobre arte e estética.

Essa multifacetada actividade intelectual foi acompanhada, e integrou, uma singular intervenção militante, decorrente do facto de a adesão de Álvaro Cunhal ao ideal comunista ter sido uma opção de vida, concretizada com a sua dedicação ao Partido Comunista Português, ao qual aderiu aos 17 anos de idade, na mesma altura em que entrou para a Faculdade de Direito de Lisboa. Iniciou assim a entrega total à luta por uma sociedade sem explorados nem exploradores, pela liberdade, pela democracia, pela defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo, de Portugal.

Em 1936, Álvaro Cunhal, então com 22 anos, é enviado a Madrid pela direcção do PCP com uma missão específica. Face ao desencadeamento do golpe fascista de Franco participa em actividades de resistência. Mais tarde, com o pseudónimo de Manuel Tiago, fará desta experiência o tema de uma novela, «A Casa de Eulália».

A prisão e a clandestinidade

Pouco depois do regresso de Espanha, Álvaro Cunhal foi preso pela polícia fascista. Apesar das brutais torturas a que foi submetido, recusou-se a prestar declarações. Libertado um ano depois, vai cumprir o serviço militar na Companhia Disciplinar de Penamacor – experiência que viria a ser motivo de inspiração para, muitos anos passados, escrever «Os Corrécios e Outros Contos».

Preso pela segunda vez em Maio de 1940, é sob prisão que irá defender a sua tese de licenciatura em Direito: «O aborto, causa e soluções». Libertado seis meses depois, passa em permanência à clandestinidade como funcionário do Partido Comunista Português.

Entretanto, o jovem Álvaro Cunhal colaborava intensamente em várias revistas e jornais (Liberdade, O Diabo, Sol Nascente, Seara Nova, Vértice) com textos políticos e filosóficos e sobre artes plásticas e literatura – textos que evidenciavam já uma inequívoca assimilação do marxismo com reflexão própria. Iniciara-se também no desenho e na pintura, sendo autor da capa e ilustrações dos primeiros romances do neo-realismo português, «Esteiros», de Soeiro Pereira Gomes.

A reorganização e os «passeios» no Tejo

Na década de 40, Álvaro Cunhal participa no processo de reorganização do PCP. Foi o tempo dos célebres passeios de fragata no Tejo, essa forma engenhosa promovida pelos comunistas para a realização de encontros e reuniões de intelectuais, iludindo a vigilância da polícia fascista – passeios organizados por Alves Redol, António Dias Lourenço e Soeiro Pereira Gomes e nos quais participavam, entre muitos outros, Álvaro Cunhal, Fernando Lopes-Graça, Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, Sidónio Muralha, Alexandre Cabral, Carlos de Oliveira, Carlos Pato e Fernando Piteira Santos.

Prisão e isolamento

Em Março de 1949, Álvaro Cunhal é preso na casa clandestina que habitava, no Luso. É colocado na Penitenciária de Lisboa, onde fica sob um regime de segurança máxima jamais aplicado a qualquer outro preso político: os primeiros 14 meses em total incomunicabilidade, seguidos de cerca de sete anos de rigoroso isolamento – sempre fechado numa cela onde o Sol não entrava e sob apertada vigilância dos pides.

Posteriormente, ficcionará essa experiência em dois livros: «A Estrela de Seis Pontas» e «Sala 3 e Outros Contos», assinando Manuel Tiago.

Em Maio de 1950, é julgado no Tribunal Plenário de Lisboa. Ali, passando de acusado a acusador, denuncia frontalmente o regime salazarista e as suas práticas opressoras, exploradoras, terroristas e de submissão ao imperialismo.

Notável trabalho criador

Nas severas condições prisionais a que está sujeito – e que visam abatê-lo física e moralmente – Álvaro Cunhal resiste trabalhando intensamente. Ao mesmo tempo que faz da prisão um espaço de luta e trava um incessante combate pelos seus direitos enquanto preso político, desenvolve um notável e diversificado trabalho criador, bem expressivo da sua singular personalidade intelectual.

Escreve dois importantes ensaios: «As lutas de classes em Portugal nos fins da Idade Média» e «Contribuição para o Estudo da Questão Agrária». Traduz o «Rei Lear» de Shakespeare. Reflecte e escreve sobre «A Origem das Espécies» de Darwin. Escreve ficção literária, os romances «Cinco Dias, Cinco Noites» e «Até Amanhã, Camaradas». Escreve sobre arte e estética: «Cinco notas sobre forma e conteúdo». Produz os «Desenhos na Prisão» e «Projectos».

Solidariedade internacional

Nos anos 50, desenvolve-se uma ampla campanha internacional de solidariedade com Álvaro Cunhal. Por todo o mundo, trabalhadores, estudantes, intelectuais, homens e mulheres das artes e das letras exigem a sua libertação. O grande poeta chileno Pablo Neruda dedica um poema a Álvaro Cunhal.

A Fuga de Peniche

Ocorreu no dia 3 de Janeiro de 1960 e foi uma das mais importantes fugas de toda a história do fascismo. Com ela, dez presos, entre eles Álvaro Cunhal, evadiram-se da mais segura prisão do fascismo – o Forte de Peniche – e, recuperando a liberdade, retomaram a luta clandestina nas fileiras do PCP.

A fuga de Peniche teve repercussões imediatas na actividade, na dinâmica e no conteúdo da intervenção do PCP, que nos anos seguintes iria organizar e dirigir algumas das mais relevantes lutas contra a ditadura, designadamente as poderosas manifestações de massas do ano de 1962, como a luta dos estudantes do Superior, a realização do maior 1.º de Maio durante o fascismo e a conquista das oito horas pelos assalariados rurais da zona do latifúndio.

«Rumo à Vitória»: anúncio de Abril

Em 1964, Álvaro Cunhal escreve «Rumo à Vitória», obra maior da sua produção política e teórica, marco impressivo do pensamento político marxista-leninista no nosso País – que virá a constituir a base essencial do Programa para a Revolução Democrática e Nacional, aprovado pelo VI Congresso do PCP, em 1965.

É um trabalho de leitura indispensável para quem queira conhecer a história de Portugal durante o regime fascista: a política de opressão e terror, os crimes cometidos, as condições de exploração dos trabalhadores e do povo português pelo poder dos monopólios e dos latifúndios – e a resistência antifascista.

«Rumo à Vitória» define os caminhos para o derrubamento do fascismo e é como que o anúncio do 25 de Abril libertador.

Revolução e contra-revolução

Nos dias e meses que se seguem ao 25 de Abril materializaram-se as grandes conquistas da Revolução. A liberdade; os direitos políticos, laborais e sociais; as nacionalizações; a Reforma Agrária; o poder local democrático afirmam-se como pilares essenciais do País novo em construção – a par do reconhecimento da independência dos povos das colónias e do fim da guerra colonial e do estabelecimento de relações com todos os países e povos do planeta. A Constituição da República Portuguesa, aprovada em 1976, consagrando estas conquistas, apresenta-se como matriz da mais avançada democracia alguma vez existente em Portugal.

A história da Revolução de Abril é tratada por Álvaro Cunhal na sua obra «A Revolução Portuguesa – o Passado e o Futuro». Aí aborda, igualmente, os primeiros passos dados pela contra-revolução – tema que desenvolverá e aprofundará mais tarde em «A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril – a contra-revolução confessa-se».

Álvaro Cunhal integrou os primeiros quatro governos provisórios, três dos quais presididos pelo General Vasco Gonçalves. Em 1975 foi eleito para a Assembleia Constituinte e para deputado na Assembleia da República nas eleições realizadas de 1976 a 1987. De 1985 a 1992 foi membro do Conselho de Estado.

Profícua reflexão

Em 1985, na continuidade da reflexão a que vinha a proceder ao longo de décadas, Álvaro Cunhal publica outra das suas obras de referência, «O Partido com Paredes de Vidro». E anos depois, em 1996 – também dando expressão a um processo de reflexão iniciado na juventude – expõe os seus conceitos sobre arte e estética no ensaio, que é também uma proposta de reflexão, «A arte, o artista e a sociedade».

Indivíduo multifacetado

Álvaro Cunhal foi um indivíduo multifacetado, alguém que teve uma vida que é resultado de uma opção sustentada, assim como o seu rosto é o rosto de uma causa, cedo escolhida e para sempre mantida. Intelectual e artista comunista, Álvaro Cunhal encarou e praticou a política e as artes como um trabalho de transformação do mundo e da vida, um trabalho incendiado por uma paixão criadora.

Militante dedicado do Partido que ajudou a construir e no qual deixou a sua marca, Álvaro Cunhal é simultaneamente um indivíduo histórico cuja excepcionalidade só pode ser compreendida à luz da dialética da sua formação por esse mesmo Partido.

O seu legado, o seu exemplo, o seu pensamento, o seu trabalho, o seu contributo na luta revolucionária é património do seu Partido, o Partido Comunista Português, é património político e cultural dos trabalhadores e do povo português, é património da causa internacional da luta de emancipação dos trabalhadores e dos povos.

Um legado de vida, pensamento e luta que se projecta na actualidade e no futuro, ao serviço dos trabalhadores, do povo e da pátria.

Texto do guião da sessão cultural evocativa, lido por Cândido Mota. O título e os subtítulos são da responsabilidade da redacção.

António Vilarigues

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Escrevi este artigo para o jornal «Público» em 19 de Junho de 2005, após a morte de Álvaro Cunhal. Achei por bem recordá-lo agora.

De tudo o que os inimigos e adversários de Álvaro Cunhal têm dito e escrito a seu propósito sobressaem alguns traços comuns.

Desde logo que era um derrotado, fora do seu tempo. Defensor cego duma doutrina totalitária condenada ao caixote do lixo da história. Em particular, rematam triunfantes, depois da queda do muro de Berlim e da impulsão da União Soviética e dos países do leste europeu. Demonstração inequívoca, proclamam, do fim do comunismo.

Se os pudesse ler o Álvaro pela certa sorriria e diria: “Olhe que não! Olhe que não”.

Os raciocínios são perfeitamente silogísticos. Como tal limitados. Só que o Álvaro amava a dialéctica, que manejava como poucos. Chegam ao ponto de pôr, não na sua boca o que era complicado, mas na sua cabeça ideias que nunca foram as dele. Convém-lhes…

Aos que isso fazem apetece responder como o Álvaro: “contra tais argumentos batatas!

Mas, tal como o Álvaro faria, descasquemos as “batatas”.

Fim do comunismo? Não se apressem!

O comunismo é uma ideologia cuja matriz principal é a da construção de uma sociedade sem classes, de homens e mulheres iguais, sem exploradores nem explorados. Onde vigorará o conceito “de cada um segundo as suas possibilidades a cada um segundo as suas necessidades”.

Durante milénios a sociedade sem classes foi um sonho da humanidade. Sonho e “Utopia” desenhada por Thomas Moore, no século XVI, no seu livro com o mesmo titulo.

No século XIX, com Marx, Engels e os seus companheiros, o sonho e a utopia passaram a projecto de sociedade claramente delineado. Dá-se, com a Comuna de Paris, a primeira tentativa de concretização do projecto duma nova sociedade sem classes. Durou quase cem dias. Foi “democraticamente” esmagado a tiro de canhão e espingarda. Então, como agora, proclamou-se o fim do comunismo. Estávamos em 1870…

No século XX, com Lénine e os seus discípulos, com os Partidos Comunistas, a luta pela sociedade sem explorados subiu a um novo patamar. Ganhou novos e decisivos contornos, aprofundados pelos seus seguidores e que a moldaram até aos nossos dias. Com a União Soviética, primeiro, com os países socialistas nos pós II Guerra Mundial, depois. Esclareça-se que até hoje em nenhum país se atingiu o comunismo. Afirmá-lo só por ignorância, má fé, ou ambas.

As tentativas nesses países falharam no essencial. Por erros próprios sobretudo. Por intervenção externa também. Em nome do comunismo cometeram-se inúmeros crimes.

Significa isso a invalidade e o enterro da doutrina? Claro que não.

Confesso que pertenço àqueles que não gostam de fazer comparações com o cristianismo. Porque vem sempre à baila a questão da fé. E lutar por uma sociedade sem exploração do homem pelo homem, como gostava de dizer o Álvaro, não envolve fé.

Feita a ressalva, seria como se as diferentes inquisições (católica e protestante), que duraram séculos e se traduziram em intolerância, tortura e morte em nome de Deus, tivessem conduzido ao fim do cristianismo.

Eu sei que custa, mas sejamos sérios. Questões hoje dadas como adquiridas por todos nós, só o foram, e são, porque existiam países que tentavam edificar uma nova sociedade. E porque havia, e há, quem em todo o mundo lute por essa causa. Duvidam?

Direito de voto para todos (um homem, um voto). Ensino e saúde gratuitos. Igualdade da mulher e do homem (na democrática Suíça só nos anos 80 do século XX…). Salário igual para trabalho igual. Libertação e independência dos povos do chamado Terceiro Mundo oprimidos pelas potências coloniais. Direito à greve e à manifestação. Liberdade política e sindical. Fim da discriminação por questões de raça (nos EUA só em 1964…). Férias pagas. Segurança Social. Etc., etc., etc..

Sejamos honestos. Façamos como tanto gosta de dizer o José Manuel Fernandes: discutam-se as ideias. Leia-se o Programa do PCP sobre a democracia avançada, o socialismo e o comunismo. Critique-se, ou apoie-se, o que lá está e não as vulgatas do que dizem lá estar.

Segundo traço comum a alguns escritos e ditos sobre Álvaro Cunhal, é a acusação recorrente de falta de flexibilidade.

Só para rir. O homem e o político que recusava os modelos e os clichés. Que defendia, sempre, 24h por dia, 365 dias no ano, a “análise concreta da realidade concreta”. Que alertava que o que era verdade numa determinada situação, ou sector, ou região, ou país, podia não o ser noutro. O homem que proclamava, tal como os clássicos, que a realidade era sempre mil vezes, um milhão de vezes, mais rica e criadora que o melhor dos sonhos, ou o mais criativo dos projectos, esquemático!!!

Alguns episódios ilustrativos. Que, na minha opinião, devem ser contados. Até para desmitificar as calúnias e as ideias feitas.

A determinada altura o Álvaro é convidado pela Revista Internacional Problemas da Paz e do Socialismo a escrever um artigo sobre as ditaduras fascistas no mundo. Recusa por considerar que cada caso deveria ser estudado individualmente. Para depois se poderem então tirar conclusões gerais. Se fosse caso disso. E o tempo que tal estudo lhe tomaria era incompatível com a actividade prática. E apesar das insistências não aceita.

O Álvaro encarna como poucos a célebre tese marxista de que “nada do que é humano nos é estranho”. Discutia durante horas com estudantes do secundário o filme de Antonioni  “Blow-up” e o significado das principais cenas. Torceu por John McEnroe contra Bjorn Borg na mítica final de Wimbledon de 1980.

A cena conta-se em poucas palavras. Domingo de 1980. Final de Wimbledon. Terceira hora de jogo. Vai começar o célebre tiebreak do 4º set. O Álvaro desce para o lanche. Vê-nos empolgados. Pergunta o que se passa. Explicamos. Pergunta quem é o mais fraco. John McEnroe, dizemos. Senta-se, sorri e diz que vai torcer por ele. Um camarada provoca-lo. “Mas é um americano, símbolo do imperialismo”. O Álvaro volta a sorrir e diz, “mas é o mais fraco e os comunistas estão sempre do lado dos mais fracos”. Como se sabe o resultado do tiebreak foi 18-16 a favor de John McEnroe. Borg salvou 6 pontos de set e McEnroe 5 de encontro. O Álvaro, também ele entusiasmado, deixa-se ficar até ao fim do encontro (vitória de Borg 3-2). Todos os seus comentários iam no sentido da beleza daquele encontro. Pacheco Pereira (P.P.) dirá, catedrático, que foi encenação. “Olhe que não! Olhe que não”.

Duas notas ainda. Pela negativa. Constato que P.P. também pertence aos que padece do complexo do canudo. Tudo o que nestes dias disse sobre Álvaro Cunhal e Júlio Fogaça vai nesse sentido. Como historiador não devia. Os outros vinte ou trinta dirigentes do PCP na clandestinidade deveriam ser verbos de encher. Em especial se de origem operária ou camponesa.

O Vasco Valente Correia Guedes, depois do seu artigo “Crescer com o Álvaro”, (que me recuso a comentar por o considerar inqualificável do ponto de vista ético e moral) deveria, em coerência, deixar de assinar Vasco Pulido Valente. A memória de resistente antifascista e intelectual de vulto do seu avô assim o exige.

António Vilarigues

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