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Posts Tagged ‘auto-estradas’

Imolação

Cortaram-lhe a seiva e o corpo definhou, secou, tornou-se combustão. E não poderia ser de outro modo. Estrangularam os acessos por onde fluía a principal fonte de energia e renovação social que de harmonia com o meio envolvente mantinha o equilíbrio indispensável. Investiram milhões em auto-estradas que ligam urbes de grande densidade populacional e às aldeias jugulam-lhes o acesso dos principais nutrientes à sua sustentabilidade. A “modernidade” tão propagada tem sido construída sobre cadáveres, quando a modernidade, que é imparável, deverá ser construída vitalizando todos os núcleos populacionais onde quer que se encontrem, proporcionando-lhes os meios de desenvolvimento, ou usando e a expressão tão propalada, e não seguida, do “desenvolvimento sustentável”, onde o ecológico, o social e o económico é a trempe, que sustém de facto o desenvolvimento que se impõe. As aldeias estiolam e são ruínas que se esboroam sem glória, e porque desde sempre foram o sustentáculo das vilas, estas estagnam perdendo vitalidade e quaisquer hipóteses de desenvolvimento.

E, ao abandono, sem acessos e os meios indispensáveis que assegurem as condições mínimas de sobrevivência, as populações migram para a periferia das cidades ou emigram para o estrangeiro onde esperam construir o seu futuro.

Os matagais avançam e instalam-se sem que ninguém os perturbe, as resinosas não estão sujeitas a qualquer tipo de gestão e o governo entrega florestas às empresas de celulose.

Todos os meios anunciados para fazer face ao deflagrar deste combustível acumulado, todos, absolutamente todos, nunca terão capacidade para o suster. A retórica dos eloquentes responsáveis não passa de cortina de fumo para esconder a política criminosa que têm imposto escondendo a realidade que se impõe.

A nível social os fogos deflagram em todos os azimutes ateados por criminosos que se nutrem do sofrimento que sadicamente ateiam. O fascismo metamorfoseia-se utilizando novas linguagens e adereços para, adaptando-se ao meio e ao tempo, atingir os objectivos de sempre, a sujeição e exploração de quem trabalha. Utilizar a revolta como contra-fogo para conter a chamas que nos perseguem é indispensável e urgente.

Ao arco de fogo que vai encurtando o seu perímetro, as labaredas não poupam reformados e pensionistas. Onde quer que se encontre um pobre, de lança-chamas em riste, os pirómanos recolhem-lhe as cinzas num ritual de cifrões.

A LUTA CONTINUA A SER O CAMINHO

Cid Simões

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No passado recente, os actuais responsáveis pelo governo do país afirmaram posições contra a introdução de portagens nas auto-estradas A25, A24 e A23 – vejam-se as posições assumidas pelo PS nas últimas duas campanhas eleitorais, o programa do actual Governo discutido na Assembleia da República ou as afirmações de José Sócrates, na qualidade de Primeiro-Ministro, em 30.Set.06, aquando da inauguração do troço da A25 entre Boaldeia e Mangualde. Mas, faltando à palavra dada e aos compromissos assumidos, o Governo acaba de decidir impor o pagamento de portagens, nestas auto-estradas, até 15 de Abril de 2011 [cf. Resolução do Conselho de Ministros 75/2010, publicada em 22/Set/10].

Esta resolução ignora questões centrais que deviam estar presentes num processo de decisão nesta matéria:

  1. Não existem alternativas a estas vias rodoviárias estruturantes, uma vez que a EN16, a EN 2, EN 18 e EN17 são manifestamente desadequadas como vias inter-regionais, encontram-se num permanente estado de degradação e, em boa parte do seu percurso, são apenas ruas de diversas localidades. É assim que o indicador assumido pelo Governo, segundo o qual o tempo do percurso alternativo não pode ser superior a 1,3 vezes ao tempo de percurso nas SCUT, é largamente ultrapassado no caso da A25, A24 e A23 ;
  2. O traçado muito sinuoso e com declives acentuados destas auto-estradas coloca-as muito aquém da qualidade de outras;
  3. O poder de compra per capita da maioria dos concelhos servidos pela A25, A24 e A23 fica muito distante da média nacional ou mesmo dos 90 % desse valor médio (um dos critérios fixados pelo Governo para avançar com as portagens) – ficando, na maioria dos casos, por metade do valor médio nacional e a um quinto da região de Lisboa, segundo o INE [ver mapa anexo];
  4. O índice de disparidade do PIB per capita das regiões servidas por estas auto-estradas face ao valor nacional fica muito abaixo dos 75% que a União Europeia utiliza para identificar as regiões desfavorecidas ( o Governo fixou para Portugal esse índice em 80% como critério) – por exemplo: NUT Dão-Lafoes – 63,1 %, NUT Serra da Estrela – 55,8 %, NUT Pinhal Interior Sul – 67,2%, NUT Beira Interior Norte – 70,6 %,  NUT Douro – 67,3 % ou NUT- Alto Trás-os -Montes 59,8%  [fonte Eurostat];
  5. Os estudos encomendados pela Estradas de Portugal. EPE recomenda claramente que não sejam introduzidas portagens na A25, A24 e A23 [“ O regime SCUT enquanto instrumento de correcção de assimetrias regionais – estudo de critérios para aplicação de portagens em auto-estradas SCT” | F9 Consulting – Consultores Financeiros, SA,  18/Out/2006];
  6. Investigação promovida pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento demonstra de forma nunca desmentida que o investimento em infra-estruturas rodoviárias produz a prazo um aumento acumulado do produto demonstrando que “os investimentos em SCUT geram efeitos no produto largamente superiores ao custo envolvido” provocando também “efeitos de spillover regionais” – ou seja, não são só as regiões onde os investimentos foram feitos que beneficiam das SCUT; as regiões onde não houve investimento beneficiam também [“O impacto económico e orçamental do investimento em SCUTS”| Alfredo Marvão Pereira e Jorge Miguel Andraz, 2006].

A introdução de portagens nestas vias de comunicação agravaria os dramáticos indicadores atrás referidos e seria profundamente prejudicial e injusta para a economia e as populações, nomeadamente dos distritos de Viseu, Guarda, Castelo Branco e Aveiro.

Estas auto-estradas, nomeadamente a A25, são das principais vias de escoamento terrestre de produtos e mercadorias produzidas no país. O pagamento de portagens provocaria um aumento do custo de vida, criaria mais dificuldades às empresas e agravaria a situação económica e social do país e desta vasta região.

De um outro ponto de vista importa afirmar que o pagamento de portagens na A25, A23 e A24 seria uma medida que em nada contribuiria para combater a interioridade e a desertificação que hoje afectam estes distritos do interior do país.

As razões que aqui apontamos levam-nos a afirmar que, porque temos razão, prosseguiremos a luta contra as portagens nas auto-estradas A25, A24 e A23.

Estaremos na rua no próximo de 8 de Outubro buzinando contra as portagens e voltaremos com outras formas de protesto enquanto o Governo ou a Assembleia da República não decidirem alterar o rumo traçado na Resolução do Conselho de Ministros 75/2010, pondo fim à decisão de introduzir portagens na A25, A24 e A23.

Viseu, 6 de Outubro de 2010

Poder de compra per capita por localização geográfica

 (Estudo sobre o poder de compra concelhio. INE, 2007)
Fonte: http://www.ine.pt
Localização geográfica Poder de compra per capita (%)
Portugal *  100%
Cinfães 49,30%
Resende 47,95%
Armamar 49,83%
Lamego 77,64%
Moimenta da Beira 54,03%
São João da Pesqueira 55,05%
Tarouca 59,06%
Castro Daire 52,23%
Oliveira de Frades 71,71%
Penalva do Castelo 47,58%
São Pedro do Sul 56,30%
Sátão 52,12%
Vila Nova de Paiva 48,50%
Vouzela 53,62%
Fornos de Algodres 51,92%
Celorico da Beira 55,72%
Figueira de Castelo Rodrigo 54,80%
Pinhel 58,71%
Trancoso 57,32%
Lisboa 235,74%
* Base 100 – valor médio nacional

António Vilarigues

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