
«Não há nada isento de revoluções, e alterações do mundo; tudo nele se muda, porque tudo se move; por isso a firmeza é violenta, ao mesmo tempo que a inconstância é natural.»
Matias Aires
A rotina aí está: enfadonha, amorfa, insípida. O que poderia ser um excelente pretexto para manifestarmos os nossos profundos sentimentos de solidariedade actuante e permanente, não vai além da ladainha habitual, despersonalizada, frouxa, sem alma. Boas-festinhas nha-nha-nhá, com o mesmo jerico e as receitas requentadas nos bilhetes-postais do costume, escritos em inglês, francês, espanhol, alemão, pois claro, cirílico, árabe e japonês que, pela grafia se depreende, ou ainda a blogosfera inundada de mensagens com bonequinhos saltitantes e inexpressivos.
Este ano o meu bilhete de boas-festas será ilustrado com um bispote. O vaso em questão, bacio, doutor ou penico, deixo o vocábulo ao vosso gosto, é o símbolo mais eloquente da civilização e do momento histórico que estamos vivendo.
Provocação; insensibilidade; mau gosto?
Provocação seria enviar-vos as boas-festas sem esboçar um gesto de revolta face aos crimes que, neste preciso momento, estão a ser cometidos, ou cooperar na farsa dos que, para alijar a conscienciazinha, deixam à saída do supermercado um baguito de arroz, um pacote de bolacha maria e a alma aliviada.
Insensibilidade seria também não corar de vergonha ao assistir a peditórios para “dar de comer a quem tem fome”. Fome, artimanha do destino, espécie de flagelo incontrolável, catástrofe natural ou crime contra o qual se esgrime com pipocas, coca-cola e uns torrões de açúcar, sem que, por cobardia intelectual, física, social ou pela cómoda inércia que usa óculos fumados não coloca a questão: Porquê a fome?
Mau gosto seria ignorar ou achincalhar a clássica questão colocada por Almeida Garrett: “quantos pobres são necessários para fazer um rico?”. Quando é sabido que um só homem, neste momento, possui uma fortuna superior a mais de uma dezena de países do dito terceiro mundo, países onde morrem à fome milhões e milhões de crianças e, face a este genocídio, friamente organizado, à porta dos supermercados, deixar-lhes uns brinquedos, saquinhos de rebuçados e algum dó, é mais cómodo do que gritar: assassinos! Ou ir para a rua alertar para o crime e dizer onde se encontram os seus algozes.
Com o óbolo pio, um pacotinho de Bolacha Maria, por exemplo, seguem reconfortadas as boas almas a tempo de não perder o fio às telenovelas que limitam as preocupações, o raciocínio e a inteligência, no casulo morno do doce lar. Se a fome algum dia lhes bater à porta… logo se verá.
Tão-pouco se apercebem que a esmola oprime, despersonaliza e ofende quem a recebe, deixando no “benfeitor” o rasto pastoso de gestos a esconder.
Provocação ainda seria desejar boas-festas, a seco, a todos os desempregados, às famílias que passam fome, aos que são obrigados a emigrar e a todo um povo deste país que tem criminosos no poder.
“O mundo está uma arrastadeira, um caneco onde me recuso viver de braços caídos. Prometo-te amigo, cidadão, camarada que lutarei até ao limite das minhas forças pela conquista da dignidade usurpada, pela justiça escarnecida, onde o ser humano seja o sujeito das nossas preocupações, o objecto e o objectivo das nossas vidas, para que um dia possamos trocar as boas-festas sem o terror da incerteza a esmagar os nossos sonhos.”
Nota: em virtude da crise o Papa suprimiu do presépio o burro e a vaca.
Cid Simões
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