Feeds:
Artigos
Comentários

Posts Tagged ‘governantes’

Eu não estou aqui para enganar ninguém!
(De um charlatão anónimo)

Num cesto transporta a cobra. Se há cobra, a “banha” é forçosamente de confiança, proveniente de réptil certificado pela ASAE, confirmação incontestável do produto. Cobra tão necessária ao charlatão, como a todos os que duvidando da aceitação do seu discurso, apontam para a companheira e exclamam: “Está aqui a minha mulher que me não deixa mentir.” E a pobre, não diz que sim nem que não, limita-se a sorrir. Ai dela!

O rapaz de dentes sujos, e o homem de perna encolhida que depois de besuntada fica mais comprida, fazem parte da bagagem.

Juntar à tralha para o espectáculo a descontracção necessária a todo o embusteiro: fluente, afirmativo, sorridente, em suma, o perfil de aparente credibilidade colada a um pantomineiro, tal como modernamente especialistas de imagem são exímios em fabricar. Embora muitos governantes nem para isso tenham jeito.

Na ponta de um cordel caminhava um rafeiro, (o bonito), “Um pobre cão vadio, que não tinha coleira e não pagava imposto” como diria o velho Guerra Junqueiro. Era uma novidade neste tipo de espectáculo, mas como o lanzudo não parava de se coçar, ficava a dúvida se não seria unicamente o transporte das pulgas.

O “artista” enrolou a cobra ao pescoço, arregaçou as mangas, fez soar a pandeireta e como qualquer ministro, Presidente ou banqueiro atrevido, afirmou a plenos pulmões:

Não vim aqui para enganar ninguém!

E para dar credibilidade à afirmação e marcar as diferenças, começou por afirmar:

Movimento-me livremente por todas as ruas e vielas, não tenho guarda-costas e canto a Grândola Vila Morena porque me enche a alma.

O meu nome não anda arrastado pela lama nem a apodrecer em tribunais. Cumpro as minhas obrigações para com o fisco a Segurança Social e pago os meus impostos directos no pó para o cão das minhas pulgas e no casqueiro de que me nutro.

Não vim aqui para enganar ninguém!” repete.

E continua ainda com mais vigor: “Sou um homem honesto”. E virando os bolsos do avesso, exclamava:

Podem confiar em mim e no “bonito”, não estamos aqui para enganar ninguém, não vivo na Casa da Coelha, Cabo Verde, nem estudo filosofia em Paris.

A multinacional farmacêutica Suiça prometeu-me um lugar de presidente se lhe desvendasse a formula da minha banha da cobra, mostrando-me que já tinham dado emprego a um ex-primeiro-ministro muito mais aldrabão do que eu.

Respondi-lhes simplesmente que eu sou um aldrabão honesto, e a conversa ficou por aqui.

O cão sacudiu-se, e face à negação de um futuro tão promissor, as pulgas hesitaram se haviam de mudar de cão. Há pulgas que saltitam de cão para cão consoante as conveniências.

O homem parou de tocar a pandeireta, abriu a camisa, voltou-se para o público, e, teatral, convidou ainda: “Procurem à vontade; nada tenho a esconder”! “Os milhões do BPN não passaram por aqui, nem encontram vestígios de submarinos ou de outras grandes burlas. Nós, eu e o “bonito”, não roubamos nada a ninguém.

A cobra dava sinais de cansaço. As cobras não apreciam o rastejar humano. E o homem terminou: “A mim já todos me conhecem, sou oficialmente um charlatão, e o meu “bonito” a minha cobra, o deleite das crianças, somos estimados pelo povo.

Fez uma vénia de despedida e agradecimento, e circunspecto alertou:

Cuidado com a concorrência!” Presidentes, Ministros e conselheiros-embusteiros.

Olho neles! São piores que as víboras.

Cid Simões

Anúncios

Read Full Post »

Possidónio, (deprec.) político sertanejo, que só vê a salvação do país na suspensão das despesas públicas e o seu corte profundo e incondicional.
(in vários dicionários)

No último quarto do século dezanove, nos jornais de Lisboa, um folhetinista passou a designar de Possidónio um deputado que preconizava, para salvação do país, o corte profundo e incondicional de todas as despesas públicas; e os seus escritos obtiveram tamanha notoriedade que o termo se impôs, quer tornando-se substantivo comum ou adjectivando, de modo depreciativo, o que revelava mau gosto, apego ao convencional, pouca sofisticação que ou o que é simplório, piroso ou provinciano. Assim rezam os dicionários.

Camilo Castelo Branco e Aquilino Ribeiro usaram-no nos seus livros e, porque Salazar foi a expressão mais gritante do possidonismo passado, o vocábulo continua encarcerado para não incomodar os governantes de hoje.

Os Possidónios aí estão com outra linguagem e os mesmos objectivos, cortando, incondicionalmente, todas as despesas públicas para salvação da pátria. E quanto mais se vai cortando, seja à machadada ou com moto-sserra, mais a nação se afunda e, no entanto os Possidónios não desistem: encerram-se nos Centros de Saúde os Serviços de Atendimento Permanente, fecham-se maternidades e urgências deixando as populações desprotegidas e abrindo caminho aos hospitais privados para regalo dos abutres da saúde.

Para os novos Possidónios há que salvar a Nação e, para essa gentaça grosseira, uma nação é desprovida de seres humanos: é o vazio, tal como os seus cérebros.

Corta-se no ensino, ou seja, no saber que nos deve libertar da pesada e velha ignorância que tem servido e continua a ser a aliada privilegiada de todos os autocratas: o ensino degrada-se, reduz-se o pessoal docente e auxiliar, fecham-se escolas; e este importante sector onde repousa o nosso futuro é espezinhado. Para um bom choque tecnológico há que dificultar, desde o início, o acesso ao conhecimento: Os Possidónios no seu apogeu!

Encerram-se Centros de Apoio a Idosos por falta de verbas da Segurança Social. Os idosos que em campanhas eleitorais são apaparicados, passada a festa não são mais que um fardo para os governantes e, como prémio, cada vez têm menos medicamentos participados.

Aumenta o desemprego e reduzem o apoio aos sem trabalho e sem qualquer outro meio de subsistência.

Reduzem as verbas na justiça que se encontra em situação letárgica. Fecham-se esquadras da PSP e postos da GNR, deixando as populações cada vez mais desprotegidas, angustiadas, inseguras; e às esquadras e postos existentes não são dadas as condições para poderem fazer face às responsabilidades que lhes são inerentes, descendo por vezes à humilhante condição de sofrerem acções de despejo, não terem verbas para pagar a água, luz e o próprio papel higiénico.

Os possidónios que decretam a fome, distribuem entre si o saque iniciado com Soares e continuado com Cavaco, ramos da mesma cepa, tentáculos do mesmo polvo, medíocres com o mesmo ADN.

Os possidónios são os novos bárbaros. Os possidónios onde quer que cheguem tudo saqueiam, arrasam a economia, a indústria, a agricultura e o saber, deixando as populações no caos em que se encontram.

É uma constatação!
Cid Simões

Read Full Post »

Au! Au! Au!

Queremos mentiras novas”
(paredes que falam)

Um tanto autista, o senhor Presidente, com toda a autoridade que o cargo lhe confere e porque não nos auspicia dias melhores, faz um apelo à nossa auto-estima para enfrentarmos o auto-de-fé da nossa autofágica e agonizante economia.

Os portugueses devem auto-afirmar-se, demonstrar autoconfiança, deixar de se auto-agredir, auto-admirando-se. O trabalhador deve ser audaz, ao mesmo tempo que austero, e não pensar em aumentos.

Os autocratas, não sendo totalmente australopitecos, devem fazer autocrítica, seguida de autocensura por se autogovernarem.

Os trabalhadores devem auto-incriminar-se, auto-punir-se, auto-censurar-se, auto-destruir autodefesas, apagar o auto-domínio e deixar-se de auto-elogios … ficando só a “au!, au!, auto-estima”.

Sempre em autocontemplação pela auto-estrada da auto-suficiência, recusando a autognose, sem se autodefinir, os autodenominados e auriluzentes governantes auscultam o eco da sua auto-satisfação.

A auréola da banca portuguesa é cada vez mais aurífera; Os bancos privados bem podem auto-elogiar-se por se autofecundarem, com tamanha autodeterminação. E, em auto-reflexão, orgulhosos com o seu auto-retrato, não pensam automoralizar-se.

Os banqueiros têm razões de sobra para se auto-estimarem e auto-promoverem, ao auferir tão chorudos aumentos, e os governantes perderam toda a autonomia e o auto-respeito ao auxiliarem este autêntico saque ao já magro bolo, devorado só por alguns.

Auto-estimem-se! Pedem-nos. Automotivem-se, auto-instruam-se, auto-ajudem-se, autoprotejam-se, automaticamente, como autómatos. Assim sendo, entramos em autogestão, com total autonomia, sem necessitar de governantes.

Sua excelência Victor Constâncio, senhor de magnifico auto domínio, correndo em automóvel de alta cilindrada, autor da autópsia da nossa economia não quer aumentos para os outros; augurei-lhe os melhores resultados nas suas novas funções e que lhe auspiciava uma longa ausência.

Desejou-me muita au! au! Auto-estima, que me tornasse auto-sustentável e para me auto-abster de viver, fazendo apelo à autopiedade e que mantivesse a minha autodisciplina sempre em auto-observação.

– Era tão bom ter um autoclismo do tamanho da Barragem do Alqueva!…

Não era?

Cid Simões

Read Full Post »