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«Toda a gente é interessante se a gente souber ver toda a gente
Álvaro de Campos

Interiorizámos o sebastiânico nevoeiro, bruma que sempre nos envolveu a esperança e, assim, “vamos andando”. “Vamos andando…”, expressão do nosso dia a dia que retrata o ramerrão que nos oprime.

A vida é assim… Pois é, responde o outro, afogado na sua ronceirice.

E neste nosso fatal fatalismo, já nem vamos andando, deslizamos, escorregamos ao sabor da inércia. “O que é que se há-de fazer?…

Somos assim ou desejam-nos deste modo; se assim fossemos, como justificar o desabrochar das nossas capacidades e o reafirmar da nossa personalidade quando, noutras paragens, somos chamados a pôr à prova os nossos méritos?

Afogamos a nossa auto-estima no “lá terá que ser”, quando não no desleixo que expressa o “quero lá saber” ou no enjoado, “pois, pois…

Deixámos de assumir as convicções que nos restam; de ombros descaídos caminhamos para uma auto-castração que leva ao cinzentismo que desagua na neutralidade, lugar seguro que permite cair para a direita ou esquerda, conforme soprem os ventos, podendo, assim, mais facilmente, rejubilar por oportunismo ou vaidade com as vitórias dos clubes ou partidos que estejam na mó de cima. Exultam-se as virtudes alheias porque deixámos de acreditar em nós próprios?

Bons, valorosos, foram os nossos antepassados. Onde está o homem capaz de manejar a espada de D. Afonso Henriques? Onde?! Esse é que era destemido! E o Navegador?, imponente em Sagres sonhando “O globo mundo em sua mão”, como nos diz Fernando Pessoa.

Pobres de nós, tão mesquinhos frente aos nossos “egrégios avós”!

Ninguém sabe onde pára a espada de D. Afonso, e nada nos permite crer que o Navegador tivesse estado em Sagres. Remetem-se, pois, os nossos feitos para um mítico passado, desvalorizando o presente.

No hoje que estamos vivendo, espezinha-se a inteligência, desvaloriza-se a criatividade, abafa-se tudo o que nos possa enaltecer para não termos a veleidade de assumir as nossas capacidades para intervir e fazer mudar o rumo da história, sabendo-se como se sabe, ou se deveria saber, que os grandes saltos históricos tiveram sempre o povo como seu principal intérprete. Um perigo!

A desmentir toda esta apatia publicitada surge a quotidiana realidade. Em 2012 só em Lisboa saíram à rua cerca de duas manifestações por dia e por todo o país a PSP contabilizou mais de três mil manifestações de descontentamento e reivindicação.

Pretendem-nos um povo de mendigos, gente que viva da caridade que avilta e oprime e se sente incapaz de ter em mãos o seu destino. Enganam-se!

O 25 de Abril e o 1º de Maio vão mostrar que este Povo está vivo e actuante e continua a arvorar a bandeira da dignidade.

Cid Simões

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A história, por dever de gratidão, retém no seu crivo os indivíduos “que por obras valorosas” continuam referência, vivendo na lembrança colectiva. Acontece porém que a história, escrita pelas classes que detêm o poder, relegam para o esquecimento, assassinam historicamente todos os que com elas não se identificam social e ideologicamente. E este rasurar da história processa-se pelos mais ínvios e dissimulados caminhos. No «Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea – Academia das Ciências de Lisboa», editado em 2001, todas as siglas partidárias, das mais recentes aos grupelhos sem expressão e já desaparecidos, estão contempladas neste instrumento de consulta, só as siglas “PC e PCP” com nove décadas de existência foram “esquecidas”. Um lapso que cumprirá a sua missão enquanto o dicionário existir.

Compete-nos, é um dever que a história nos impõe, imperativo de classe, marcar a importância dos que entre nós se destacaram na luta pela dignificação dos que vendem a sua força de trabalho e com quais lutaram para que fôssemos livres. Ao amputarem a história dos feitos e valores daqueles que se distinguiram na luta pela construção de uma sociedade justa, coarctam-nos as raízes, enfraquecem-nos a confiança e a nossa caminhada, titubeante, perde vigor. Assim sendo, atentos, não podemos esquecer os que dedicaram toda a sua existência, dignificando-a ao abraçar a luta de todos os oprimidos. Desta postura não resulta o culto de personalidade, mas o dever de colocar no devido lugar histórico os que connosco como classe se ergueram e que a história não pode nem deve esquecer. Não nos podemos permitir que sejam os opressores a fazerem a triagem de quem ou não deve ficar para a posteridade.

2013 é, será, o ano em que seremos nós a escrever a nossa própria história, sem o tal ‘culto de personalidade’ com que capciososamente há quem espalhe um fumo de despeito para ofuscar a limpidez do nosso propósito.

Ao assinalar o ‘Centenário de Álvaro Cunhal’ por decisão do Comité Central do PCP, o Partido reforçou o seu grau de responsabilidade e a sua decisão é, inequivocamente, o sentir de todos os militantes comunistas e de muitas mulheres e homens que desde sempre nos têm acompanhado. Não temos a pretensão de enaltecer a figura de Álvaro Cunhal, trabalho quão difícil como desnecessário. Desejamos que este ano em que assinalamos o ‘Centenário de Álvaro Cunhal’ e em que também nos envolveremos, não pretende desenvolver o culto só pelo militante comunista mas afirmar a validade da sua existência como ser humano a elevado grau.

A personalidade deste dirigente comunista vai muito para além dos seus camaradas e das nossas fronteiras; os seus feitos e obra são o nosso sentir.

Dedicar este ano a Álvaro Cunhal é a melhor e mais sentida homenagem que podemos prestar ao povo trabalhador.

Cid Simões

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Não esqueçam as manifestações marcadas para 9 e 16 de Junho. É o caminho da solidariedade.

O desemprego continua a aumentar, confirma-se que a peregrinação não resultou. Se não lutarmos não há santos que nos valham.

Estar desempregado não pode ser um sinal negativo. Despedir-se ou ser despedido não tem de ser um estigma. Tem de representar também uma oportunidade para mudar de vida. Tem de representar uma livre escolha, uma mobilidade da própria sociedade”. Passos Coelho. Dixit!

Está desempregado? Não desespere! Monte a sua própria empresa, seja o seu próprio patrão, nós damos-lhe o apoio necessário tal como fizemos à empresa que o despediu e se deslocalizou.

Seja um empreendedor de sucesso, gerente da sua própria oficina, conduza os seus negócios. Liberte-se! Em poucos minutos, ajudamo-lo a oficializar o seu novo estatuto de empresário. Vá à NET e consulte “empresa na hora”, onde será encaminhado por uma mão amiga. Pode formar a sua empresa através das páginas WEB criadas para o efeito, escritórios virtuais com alojamento gratuito on line. Abrimos-lhe as portas do futuro, melhor dizendo, os portões da felicidade.

Para formação dos novos empresários e englobado no “pacote anti-crise“, organizam-se seminários, conferências, cursos abertos ou workshops (é tão snob estar num workshop) com doutores, psicólogos e muitos outros patuscos que se pavoneiam nesses espectáculos que os sustentam.

Aí se estabelece o perfil do pequeno empreendedor ou se encaminha o candidato para as “novas oportunidades” – antes que feche –  um outro embuste que não passa de um entretenimento passageiro.

Fazem crer que é mais fácil ser empresário que obter um emprego e, repetida a ideia à exaustão, até há quem acredite.

Há males que vêm por bem: ficou sem trabalho, mas foi promovido a patrão. Abra um café ao lado daquele café que abriu em frente ao café que faliu. Seja criativo. Sim, criativo! Neste caso não o podemos ajudar, a criatividade terá de ser mesmo sua. Está, pois, de mãos livres e mente aberta, podendo dar largas à imaginação. Nós, governantes, estamos incondicionalmente disponíveis para lhe dar assistência.

Empresa agora e na hora da nossa morte…”. Desculpem, este parágrafo é fruto de uma das muitas peregrinações…

Viva e beneficie da modernidade e das oportunidades que lhe oferecemos; a sociedade mudou e os horizontes alargaram-se. Não seja careta, lembre-se que vive, desde o Homo Sapiens o mais apaixonante momento da história onde o tempo cavalga a virtualidade. Tão lindo, não é?

O desempregado que é potencialmente um empreendedor – expressão muito em voga – não deve empreender, cismar sobre a sua condição de excluído, nem deve dar ouvidos aos sépticos que lembrando Garrett perguntam: “Quantos desempregados são necessários para fazer um pequeno empresário?” Lembre-se que centenas de desempregados criaram as suas próprias empresas, desconhecendo-se quantos já abriram falência. Cerca de um milhão e quinhentos mil desempregados são candidatos a empreendedores

Ficar sem trabalho não é uma fatalidade; é, sim, tal como afirmou um celerado governante que não chegou a ser preso: “um estado de espírito”.

O combustível que alimenta a máquina de fazer os pequenos empresários, engenho tão publicitado pelos governantes, é imposto pelo neoliberalismo que os governos aplaudem, e denomina-se: Exploração.

Cid Simões

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Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Chico Buarque

Cansados, há os que blasfemam quanto ao caminho pedregoso que têm trilhado, não vislumbrando saída que leve à concretização dos seus sonhos; desiludidos, baixam a guarda, sentam-se remoendo uma cólera seca, inócua como a pólvora que também assim se designa.

Gostavam alguns que, depois de terem entoado belas canções, os que detinham o poder deixassem os seus obscenos privilégios e mui respeitosamente entregassem o fruto do saque, desculpando-se pelos crimes cometidos e zarpassem para não mais voltar; não pensaram tão-pouco que ao se retirarem para longínquas paragens, instalando-se em mansões-trincheira, deixariam os seus peões, valetes e trunfos a cantarem connosco que “o povo unido jamais será vencido” para que, matreiros, minassem o futuro da fraternidade desejada.

Os que supuseram que seria possível o avanço sem paragens ou recuos e consequentes sofrimentos têm sido idealistas no mais negativo sentido do termo e, porque sem ideal, confundem os seus desejos com a realidade.

Entretanto, embora enfraquecido, o 25 de Abril foi criando os seus anticorpos nas consciências que todos os dias se reforçam, a nível individual e colectivo; são as greves constantes raramente publicitadas, manifestações localizadas de pequenos grupos, reivindicando o direito à saúde, exigindo os salários em atraso ou lutando contra os despedimentos ou, ainda, impedindo o roubo das máquinas indispensáveis ao seu ganha-pão. E destas lutas, aparentemente isoladas, tecem-se movimentos de massas que atingem o seu clímax em greves gerais, manifestações a nível nacional, como jamais haviam sido vistas e, cuja meta e referências continuam a ser “as portas que Abril abriu”.

O 25 de Abril é semente que se renova a cada instante, a esperança que a todo o momento renasce; só os que perdem a coragem e com ela o sentido do futuro se insurgem contra os jovens, tomando-os como alvo das suas frustrações e desaires. E porque pela incapacidade que manifestam em continuar a caminhada deixaram de ter confiança em si próprios. Os cépticos vilipendiam as gerações vindouras.

A realidade vivida e sofrida pela esmagadora maioria dos assalariados, laborando a vários níveis de competência, é em si mesma o potencial testemunho de que as novas gerações tomarão forçosamente em mãos as rédeas do seu futuro, rompendo caminhos que não podemos prever.

Os desiludidos não compreenderam que o 25 de Abril não foi meta, mas caminhada (por trilhos minados de ciladas); recusam-se a compreender que a liberdade não será nunca um elemento estático; ela, liberdade, é a dinâmica da própria sociedade, a energia e o motor das mutações históricas.

Há que estar atento, porque como escreve Isabel Rauber “Não existe um todo predeterminado final, a que tenhamos de “chegar”, nem um tempo e um caminho já fixados para isso; vai sendo delineado entre os diversos actores populares com a sua participação, os seus ritmos e os seus tempos.”

Cid Simões

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O Congresso Internacional Marx em Maio, perspectivas para o séc.XXIorganizado pelo Grupo de Estudos Marxistas, terá lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa nos próximos dias 3, 4 e 5 de Maio de 2012. Congresso multidisciplinar, incluindo participantes das áreas da filosofia, da história e da economia, mas também das ciências naturais, das artes plásticas, da política e do mundo sindical, o seu fio condutor será a actualidade e fertilidade do pensamento marxista enquanto instrumento fundamental de análise crítica. Num contexto de crise generalizada, pautada pela desconsideração do papel da racionalidade, da teoria e da cultura como elementos fundamentais de transformação, individual e colectiva, o Congresso Marx em Maio procurará contribuir para o aprofundamento de problemáticas centrais dos nossos dias e para o estímulo de um pensamento científico guiado por uma racionalidade crítica e dialéctica.

PARA MAIS INFORMAÇÕES: grupodeestudosmarxistas@gmail.com

António Vilarigues

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(…)

Como escritor, Alves Redol ficará na história, em primeiro lugar, como o autor do primeiro romance do neo-realismo português – Gaibéus – e, depois, por uma vasta e diversificada obra literária: romances, contos, teatro, histórias infantis, ensaios, que marcaram impressivamente a nossa literatura e fazem dele um nome maior da história da cultura portuguesa.

Com Gaibéus, Fanga, Avieiros, Vindimas de Sangue, Uma Fenda na Muralha, A Barca dos Sete Lemes, Barranco de Cegos, entre outras obras, Redol trouxe para a literatura os problemas dos trabalhadores, os seus anseios, as suas aspirações, as suas lutas. Nos seus romances, nos seus contos, nas suas peças de teatro, ele toma partido: com o seu talento, com a sua inteligência, com a sua sensibilidade, toma inequivocamente o partido dos explorados, dos oprimidos, dos humilhados e ofendidos, contra os exploradores e os opressores. E sabemos as implicações decorrentes de tal opção naquele tempo de ausência total de liberdade.

Não foi por acaso que Alves Redol conheceu por duas vezes a brutalidade da PIDE – como não foi obra do acaso o facto de ele ter sido o único escritor português obrigado a submeter os seus romances à censura prévia dos esbirros fascistas.

(…)

Para Ouvir e Ver:

António Vilarigues

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A BALADI (Federação Nacional de Baldios) promoveu, de 23 a 25 de Setembro, o 1º Congresso Europeu das Áreas Comunitárias. Este Congresso reuniu em Vila Real, na Aula Magna da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), representantes de vários países e regiões da Europa.

Estiveram presentes cerca de 400 participantes. Quer das regiões portuguesas de Trás-os-Montes, Alto Douro, Minho, Beira Alta, Beira Baixa, Coimbra, Santarém e Leiria. Quer de organizações ligadas às áreas comunitárias de várias regiões de Espanha, Escócia e Itália, identificados como os países com mais áreas comunitárias e públicas.

A realização deste Congresso foi um marco histórico na defesa das áreas comunitárias na Europa. Por ser a primeira grande iniciativa a reunir diversos actores, nomeadamente universidades, técnicos e especialistas nos diversos recursos naturais de diferentes países, ligados aos baldios.

O objectivo central do Congresso era conhecer as realidades comunitárias de diferentes países e regiões da Europa. Bem como procurar, em conjunto, a melhor forma de defender, valorizar e desenvolver esta forma ancestral de propriedade.

Como foi afirmado, para quem ainda tivesse dúvidas, as reflexões trazidas, esclareceram de forma liminar a extraordinária importância das áreas comunitárias. As suas profundas raízes históricas. O seu interesse bio-cultural. O seu significado político-jurídico. A sua riqueza sociológica e económica. O seu impacto positivo no desenvolvimento dos povos, dos países e das regiões. A tal ponto, que seria justo concluir desta troca de experiências e vivências que, sem as áreas comunitárias a Europa seria, hoje, um continente bem mais pobre.

Em Portugal os baldios têm resistido às diversas ofensivas. Sejam dos grandes senhores da terra, das grandes empresas da indústria da celulose, dos especuladores imobiliário, dos lobbies de diversas épocas. Sejam das investidas de muitas autarquias locais. Sejam dos ataques às Leis dos Baldios (por parte do PS, PSD e CDS), da ganância dos poderosos. Isto ao longo de mais de 800 anos da nossa história.

Afirmam os detractores da propriedade comunitária que os baldios já não têm qualquer interesse para os povos. Proclamam que a modernidade os tornou atrasados, subdesenvolvidos, desnecessários.

Nada mais falso! Como foi sublinhado com múltiplos exemplos, os baldios representam para os povos que trabalham a agricultura familiar bens e serviços de fundamental importância. Foi graças a eles que se tem vindo a erguer nas povoações serranas uma obra de inegável valor económico, social e cultural. Uma obra que contribuiu para melhorar as condições de vida e o bem-estar em regiões interiores tradicionalmente abandonadas pelos poderes centrais. Ergueram-se centros culturais, casas do povo, espaços de convívio. Melhoraram-se pastagens e re-incrementou-se a pastorícia. Construíram-se infra-estruturas de prevenção e combate aos incêndios e de apoio à actividade agrícola. Melhoraram-se acessos. Exploraram-se novos recursos. Reflorestaram-se grandes áreas. Investiu-se na cinegética.

Os tradicionais inimigos da propriedade comunitária no nosso espreitam de novo a oportunidade para atacar. A esses, foi dito neste 1º Congresso Europeu das Áreas Comunitárias: Desenganem-se! Os povos saberão continuar a defender os baldios. Nem que para tanto seja necessário voltar a tocar os sinos a rebate. Organizar abaixo-assinados, protestos, concentrações e manifestações. Destruir cercas e vedações sobre estas áreas. Enfrentar usurpadores. Recorrer aos tribunais.

E para o Governo ficou o aviso. Tenham cuidado! Não se metam em aventuras políticas contra os sagrados interesses dos povos. Porque os povos saberão dar a respostas que cada situação exigir.

Nota solta: A comunicação social dominante, apesar de informada, primou pela ausência. São os chamados «critérios jornalísticos»…

Especialista em Sistemas de Comunicação e Informação

In Jornal do Centro – Edição de 30 de Setembro de 2011

António Vilarigues

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