Feeds:
Artigos
Comentários

Posts Tagged ‘Liberdade’

 Iremos escrever, no dia 10 de novembro no Campo Pequeno, mais uma página na nossa grande e edificante história.

 São as fotografias que mais o identificam:
um Homem entre seus iguais.

 Recordá-lo é criar estímulos para continuarmos lutando.

Cid Simões

Anúncios

Read Full Post »

«Um dos elementos que, na luta contra a ditadura, na revolução e na contra-revolução, conferiu ao PCP capacidade e contagiante confiança, foi o facto de, no seu programa e na sua acção, apontar uma ampla perspectiva histórica.

«O programa de um partido, que propõe uma transformação social profunda e libertadora, não pode ser confundido, e muito menos substituído, por uma plataforma de conjuntura ou um programa eleitoral. Nem a sua actuação política pode ter como objectivo torná-lo um colaborador da política de governos ao serviço do grande capital.

«Em Portugal, a institucionalização, em termos constitucionais, da contra-revolução, com a pretensão de que o sistema socioeconómico e o regime político são intocáveis e irreversíveis, coloca a necessidade de apontar claramente objectivos a curto, a médio e a longo prazo.

«A curto prazo: medidas urgentes, por vezes imediatas, para resolver problemas instantes. A médio prazo: a defesa e aprofundamento da democracia nas suas quatro vertentes. A longo prazo: que temporalmente pode ser mais próximo ou mais distante, a construção e edificação de uma sociedade socialista.

«E, sempre, a defesa da independência e soberania nacionais.»

Álvaro Cunhal, A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril (A contra-revolução confessa-se),
Edições «Avante!», Lisboa, 1999, p. 319

António Vilarigues

Read Full Post »

A par de uma intensa actividade política revolucionária, Álvaro Cunhal desenvolveu, ao longo da sua vida, um apaixonado interesse por todas as dimensões da existência. Militante e dirigente comunista, sempre que as circunstâncias de todo não o impedissem praticava e convivia com as artes, a ficção literária e as artes plásticas, assim como é levado a confessar a sua paixão pela música. Ao mesmo tempo, manteve uma longa e intermitente reflexão sobre a arte e a estética. Quando publica o livro «A Arte, o Artista e a Sociedade», percebemos justamente que o seu pensamento sobre estética foi evoluindo ao longo da sua vida, os seus conceitos operatórios foram-se desenvolvendo e superando, até que o seu pensamento abandona qualquer mecânica instrumental na apreciação da arte.

Para Álvaro Cunhal, «arte é liberdade, é fantasia, é descoberta e é sonho (…). Matar a liberdade, a imaginação, a fantasia, a descoberta e o sonho seria matar a criatividade artística e negar a própria arte, as suas origens, a sua evolução e o seu valor como atributo específico do género humano».

Da Faculdade de Direito à Guerra Civil de Espanha

A vida de Álvaro Cunhal – aí incluídos os mais de 12 anos passados nas prisões fascistas – ficou marcada por uma intensa actividade intelectual, repartida por disciplinas e áreas das mais diversas, desde a elaboração de um notável corpo de pensamento histórico e teórico até à investigação e à análise históricas, à tradução e à criação literária, ao desenho e à pintura, à reflexão sobre arte e estética.

Essa multifacetada actividade intelectual foi acompanhada, e integrou, uma singular intervenção militante, decorrente do facto de a adesão de Álvaro Cunhal ao ideal comunista ter sido uma opção de vida, concretizada com a sua dedicação ao Partido Comunista Português, ao qual aderiu aos 17 anos de idade, na mesma altura em que entrou para a Faculdade de Direito de Lisboa. Iniciou assim a entrega total à luta por uma sociedade sem explorados nem exploradores, pela liberdade, pela democracia, pela defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo, de Portugal.

Em 1936, Álvaro Cunhal, então com 22 anos, é enviado a Madrid pela direcção do PCP com uma missão específica. Face ao desencadeamento do golpe fascista de Franco participa em actividades de resistência. Mais tarde, com o pseudónimo de Manuel Tiago, fará desta experiência o tema de uma novela, «A Casa de Eulália».

A prisão e a clandestinidade

Pouco depois do regresso de Espanha, Álvaro Cunhal foi preso pela polícia fascista. Apesar das brutais torturas a que foi submetido, recusou-se a prestar declarações. Libertado um ano depois, vai cumprir o serviço militar na Companhia Disciplinar de Penamacor – experiência que viria a ser motivo de inspiração para, muitos anos passados, escrever «Os Corrécios e Outros Contos».

Preso pela segunda vez em Maio de 1940, é sob prisão que irá defender a sua tese de licenciatura em Direito: «O aborto, causa e soluções». Libertado seis meses depois, passa em permanência à clandestinidade como funcionário do Partido Comunista Português.

Entretanto, o jovem Álvaro Cunhal colaborava intensamente em várias revistas e jornais (Liberdade, O Diabo, Sol Nascente, Seara Nova, Vértice) com textos políticos e filosóficos e sobre artes plásticas e literatura – textos que evidenciavam já uma inequívoca assimilação do marxismo com reflexão própria. Iniciara-se também no desenho e na pintura, sendo autor da capa e ilustrações dos primeiros romances do neo-realismo português, «Esteiros», de Soeiro Pereira Gomes.

A reorganização e os «passeios» no Tejo

Na década de 40, Álvaro Cunhal participa no processo de reorganização do PCP. Foi o tempo dos célebres passeios de fragata no Tejo, essa forma engenhosa promovida pelos comunistas para a realização de encontros e reuniões de intelectuais, iludindo a vigilância da polícia fascista – passeios organizados por Alves Redol, António Dias Lourenço e Soeiro Pereira Gomes e nos quais participavam, entre muitos outros, Álvaro Cunhal, Fernando Lopes-Graça, Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, Sidónio Muralha, Alexandre Cabral, Carlos de Oliveira, Carlos Pato e Fernando Piteira Santos.

Prisão e isolamento

Em Março de 1949, Álvaro Cunhal é preso na casa clandestina que habitava, no Luso. É colocado na Penitenciária de Lisboa, onde fica sob um regime de segurança máxima jamais aplicado a qualquer outro preso político: os primeiros 14 meses em total incomunicabilidade, seguidos de cerca de sete anos de rigoroso isolamento – sempre fechado numa cela onde o Sol não entrava e sob apertada vigilância dos pides.

Posteriormente, ficcionará essa experiência em dois livros: «A Estrela de Seis Pontas» e «Sala 3 e Outros Contos», assinando Manuel Tiago.

Em Maio de 1950, é julgado no Tribunal Plenário de Lisboa. Ali, passando de acusado a acusador, denuncia frontalmente o regime salazarista e as suas práticas opressoras, exploradoras, terroristas e de submissão ao imperialismo.

Notável trabalho criador

Nas severas condições prisionais a que está sujeito – e que visam abatê-lo física e moralmente – Álvaro Cunhal resiste trabalhando intensamente. Ao mesmo tempo que faz da prisão um espaço de luta e trava um incessante combate pelos seus direitos enquanto preso político, desenvolve um notável e diversificado trabalho criador, bem expressivo da sua singular personalidade intelectual.

Escreve dois importantes ensaios: «As lutas de classes em Portugal nos fins da Idade Média» e «Contribuição para o Estudo da Questão Agrária». Traduz o «Rei Lear» de Shakespeare. Reflecte e escreve sobre «A Origem das Espécies» de Darwin. Escreve ficção literária, os romances «Cinco Dias, Cinco Noites» e «Até Amanhã, Camaradas». Escreve sobre arte e estética: «Cinco notas sobre forma e conteúdo». Produz os «Desenhos na Prisão» e «Projectos».

Solidariedade internacional

Nos anos 50, desenvolve-se uma ampla campanha internacional de solidariedade com Álvaro Cunhal. Por todo o mundo, trabalhadores, estudantes, intelectuais, homens e mulheres das artes e das letras exigem a sua libertação. O grande poeta chileno Pablo Neruda dedica um poema a Álvaro Cunhal.

A Fuga de Peniche

Ocorreu no dia 3 de Janeiro de 1960 e foi uma das mais importantes fugas de toda a história do fascismo. Com ela, dez presos, entre eles Álvaro Cunhal, evadiram-se da mais segura prisão do fascismo – o Forte de Peniche – e, recuperando a liberdade, retomaram a luta clandestina nas fileiras do PCP.

A fuga de Peniche teve repercussões imediatas na actividade, na dinâmica e no conteúdo da intervenção do PCP, que nos anos seguintes iria organizar e dirigir algumas das mais relevantes lutas contra a ditadura, designadamente as poderosas manifestações de massas do ano de 1962, como a luta dos estudantes do Superior, a realização do maior 1.º de Maio durante o fascismo e a conquista das oito horas pelos assalariados rurais da zona do latifúndio.

«Rumo à Vitória»: anúncio de Abril

Em 1964, Álvaro Cunhal escreve «Rumo à Vitória», obra maior da sua produção política e teórica, marco impressivo do pensamento político marxista-leninista no nosso País – que virá a constituir a base essencial do Programa para a Revolução Democrática e Nacional, aprovado pelo VI Congresso do PCP, em 1965.

É um trabalho de leitura indispensável para quem queira conhecer a história de Portugal durante o regime fascista: a política de opressão e terror, os crimes cometidos, as condições de exploração dos trabalhadores e do povo português pelo poder dos monopólios e dos latifúndios – e a resistência antifascista.

«Rumo à Vitória» define os caminhos para o derrubamento do fascismo e é como que o anúncio do 25 de Abril libertador.

Revolução e contra-revolução

Nos dias e meses que se seguem ao 25 de Abril materializaram-se as grandes conquistas da Revolução. A liberdade; os direitos políticos, laborais e sociais; as nacionalizações; a Reforma Agrária; o poder local democrático afirmam-se como pilares essenciais do País novo em construção – a par do reconhecimento da independência dos povos das colónias e do fim da guerra colonial e do estabelecimento de relações com todos os países e povos do planeta. A Constituição da República Portuguesa, aprovada em 1976, consagrando estas conquistas, apresenta-se como matriz da mais avançada democracia alguma vez existente em Portugal.

A história da Revolução de Abril é tratada por Álvaro Cunhal na sua obra «A Revolução Portuguesa – o Passado e o Futuro». Aí aborda, igualmente, os primeiros passos dados pela contra-revolução – tema que desenvolverá e aprofundará mais tarde em «A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril – a contra-revolução confessa-se».

Álvaro Cunhal integrou os primeiros quatro governos provisórios, três dos quais presididos pelo General Vasco Gonçalves. Em 1975 foi eleito para a Assembleia Constituinte e para deputado na Assembleia da República nas eleições realizadas de 1976 a 1987. De 1985 a 1992 foi membro do Conselho de Estado.

Profícua reflexão

Em 1985, na continuidade da reflexão a que vinha a proceder ao longo de décadas, Álvaro Cunhal publica outra das suas obras de referência, «O Partido com Paredes de Vidro». E anos depois, em 1996 – também dando expressão a um processo de reflexão iniciado na juventude – expõe os seus conceitos sobre arte e estética no ensaio, que é também uma proposta de reflexão, «A arte, o artista e a sociedade».

Indivíduo multifacetado

Álvaro Cunhal foi um indivíduo multifacetado, alguém que teve uma vida que é resultado de uma opção sustentada, assim como o seu rosto é o rosto de uma causa, cedo escolhida e para sempre mantida. Intelectual e artista comunista, Álvaro Cunhal encarou e praticou a política e as artes como um trabalho de transformação do mundo e da vida, um trabalho incendiado por uma paixão criadora.

Militante dedicado do Partido que ajudou a construir e no qual deixou a sua marca, Álvaro Cunhal é simultaneamente um indivíduo histórico cuja excepcionalidade só pode ser compreendida à luz da dialética da sua formação por esse mesmo Partido.

O seu legado, o seu exemplo, o seu pensamento, o seu trabalho, o seu contributo na luta revolucionária é património do seu Partido, o Partido Comunista Português, é património político e cultural dos trabalhadores e do povo português, é património da causa internacional da luta de emancipação dos trabalhadores e dos povos.

Um legado de vida, pensamento e luta que se projecta na actualidade e no futuro, ao serviço dos trabalhadores, do povo e da pátria.

Texto do guião da sessão cultural evocativa, lido por Cândido Mota. O título e os subtítulos são da responsabilidade da redacção.

António Vilarigues

Read Full Post »

A pobreza, e a obediência quem a conserva é por força.”

Matias Aires

(Reflexões sobre a vaidade dos homens)

As imagens gravadas a fogo de emoção instalam-se, com tamanho vigor na memória, que delas dificilmente nos podemos libertar:

Calçada íngreme, o macho, atrelado à carroça repleta de pedra tentando conquistar o percurso impossível, as ferraduras sem apoio faiscando, e o animal impotente não conseguia avançar. O carroceiro, dando ao termo o significado mais pejorativo, praguejava e de chibata em riste flagelava, a golpes de raiva incontida, o animal indefeso. Numa tentativa para continuar a marcha, as patas dianteiras fraquejaram, ficando ajoelhado, preso aos varais, como alguém que implora piedade. Celerado, o monstro desce da carroça e com o cabo do chicote descarrega toda a brutalidade sobre o animal prostrado, procurando que o pobre se levante para continuar o calvário, e, porque não o consegue, num paroxismo de barbárie, com ambas as mãos em tenaz, agarra o focinho do macho e morde-o demorada e ferozmente.

Pareceu-me que o animal chorava; eu, que ainda nem sequer frequentava a primária, fugi soluçando. A imagem persegue-me sempre nas horas de injustiça que, na generalidade, se abate sobre os mais fracos.

Passados alguns anos, na primavera da minha juventude, deparo com um polícia que espancava com o cassetete um bêbado que nem forças tinha para se levantar. Intervim! Fui preso juntamente com o ébrio. Julgado sumariamente e condenado a dez dias de prisão; impulso decisivo para consolidar opções e solidificar, para sempre, a revolta consciente.

A personalidade baliza-se por miríades de aparentes pequenos nadas e, assim, aos poucos, vamos construindo a escala de valores que, uma vez assumida, forçoso é cumpri-la. E é neste compromisso que encontramos o nosso próprio equilíbrio.

Sempre recusei partilhar com o carroceiro ou o polícia de então o caminho deslizante para a ignomínia, colocando-me na rampa íngreme e difícil a caminho da justiça e da liberdade.

Hoje, assisto e resisto aos golpes de chicotes-lei, revestidos de pergaminhos democráticos, onde os poderosos zurzem aqueles que lhes puxam a carroça dos cifrões com vocábulos melífluos e, sem escrúpulos nem piedade, tentam impor-lhes caminhos escorregadios atulhados de fraudes, a caminho da burra dos banqueiros.

Em nome da modernidade, dilata-se e aprofunda-se, cada vez mais, o fosso entre os que nada têm e os que tudo açambarcam, a classe média, os pequenos comerciantes, agricultores e industriais junta-se aos assalariados para onde, aos poucos, vão escorregando também as profissões liberais. E todos estes trabalhadores, para que possamos ser competitivos, deverão nivelar salários e direitos, dolorosamente conquistados, pelos dos países onde se trabalha por dez réis de mel coado. E dentro de uma lógica redutora, escabrosa, desumana, para sermos cada vez mais atractivos aos investidores, teremos que nos despojar de tudo o que nos distingue da pobre besta que me fez chorar.

O talentoso Alphonse Daudet, na colectânea de contos reunidos em ‘Lettres de Mon Moulim’ brinda-nos com “La mule du Pape” a qual com ou sem rancor, esperou sete anos para, no local exacto e no momento preciso, usar a única mas poderosa arma que lhe fora concedida: o coice.

Não percamos a esperança; há em cada um de nós a paciência e a força da célebre mula papal, com uma importante diferença: hoje tudo se passa a grande velocidade.

Os carroceiros chegaram ao poder, há que afinar o coice.

É URGENTE!

Cid Simões

Read Full Post »

Esta conversa ocorreu entre 1643 e 1715, um diálogo entre Colbert e Mazarin durante o reinado de Luís XIV, na peça teatral “Le Diable Rouge”, de Antoine Rault:
Colbert;- Para arranjar dinheiro, há um momento em que enganar o contribuinte já não é possível. Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é possível continuar a gastar quando já se está endividado até ao pescoço…


Mazarin;- Um simples mortal, claro, quando está coberto de dívidas, vai parar à prisão. Mas o Estado é diferente! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então ele continua a endividar-se… Todos os Estados o fazem!


Colbert:- Ah, sim? Mas como faremos isso, se já criamos todos os impostos imagináveis?


Mazarin;- Criando outros.


Colbert;- Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.


Mazarin: -Sim, é impossível.


Colbert: – E sobre os ricos ?


Mazarin: – Os ricos também não. Eles parariam de gastar. E um rico que gasta faz viver centenas de pobres.


Colbert: – Então, como fazemos ?


Mazarin: – Colbert! Tu pensas como um queijo, um penico de doente! Há uma quantidade enorme de pessoas entre os ricos e pobres: as que trabalham sonhando enriquecer e temendo empobrecer. É sobre essas que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Quanto mais lhe tirarmos, mais elas trabalharão para compensar o que lhe tiramos. 
Formam um reservatório inesgotável. É a classe média!
Esta “conversa” já vem de à séculos, as massas comem por norma o que lhes atiram… Despertar consciências é uma tarefa mental-somática mais difícil do que parece!
Sem esquecer, que já desde os tempos em que éramos macacada, já fazíamos política…
A evolução não pára, nem estagna… É uma jornada sem fim!

El Che …Vive!

Publicado em simultâneo no Extrafísico.

# Zorze

Read Full Post »

António Vilarigues

Read Full Post »

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Chico Buarque

Cansados, há os que blasfemam quanto ao caminho pedregoso que têm trilhado, não vislumbrando saída que leve à concretização dos seus sonhos; desiludidos, baixam a guarda, sentam-se remoendo uma cólera seca, inócua como a pólvora que também assim se designa.

Gostavam alguns que, depois de terem entoado belas canções, os que detinham o poder deixassem os seus obscenos privilégios e mui respeitosamente entregassem o fruto do saque, desculpando-se pelos crimes cometidos e zarpassem para não mais voltar; não pensaram tão-pouco que ao se retirarem para longínquas paragens, instalando-se em mansões-trincheira, deixariam os seus peões, valetes e trunfos a cantarem connosco que “o povo unido jamais será vencido” para que, matreiros, minassem o futuro da fraternidade desejada.

Os que supuseram que seria possível o avanço sem paragens ou recuos e consequentes sofrimentos têm sido idealistas no mais negativo sentido do termo e, porque sem ideal, confundem os seus desejos com a realidade.

Entretanto, embora enfraquecido, o 25 de Abril foi criando os seus anticorpos nas consciências que todos os dias se reforçam, a nível individual e colectivo; são as greves constantes raramente publicitadas, manifestações localizadas de pequenos grupos, reivindicando o direito à saúde, exigindo os salários em atraso ou lutando contra os despedimentos ou, ainda, impedindo o roubo das máquinas indispensáveis ao seu ganha-pão. E destas lutas, aparentemente isoladas, tecem-se movimentos de massas que atingem o seu clímax em greves gerais, manifestações a nível nacional, como jamais haviam sido vistas e, cuja meta e referências continuam a ser “as portas que Abril abriu”.

O 25 de Abril é semente que se renova a cada instante, a esperança que a todo o momento renasce; só os que perdem a coragem e com ela o sentido do futuro se insurgem contra os jovens, tomando-os como alvo das suas frustrações e desaires. E porque pela incapacidade que manifestam em continuar a caminhada deixaram de ter confiança em si próprios. Os cépticos vilipendiam as gerações vindouras.

A realidade vivida e sofrida pela esmagadora maioria dos assalariados, laborando a vários níveis de competência, é em si mesma o potencial testemunho de que as novas gerações tomarão forçosamente em mãos as rédeas do seu futuro, rompendo caminhos que não podemos prever.

Os desiludidos não compreenderam que o 25 de Abril não foi meta, mas caminhada (por trilhos minados de ciladas); recusam-se a compreender que a liberdade não será nunca um elemento estático; ela, liberdade, é a dinâmica da própria sociedade, a energia e o motor das mutações históricas.

Há que estar atento, porque como escreve Isabel Rauber “Não existe um todo predeterminado final, a que tenhamos de “chegar”, nem um tempo e um caminho já fixados para isso; vai sendo delineado entre os diversos actores populares com a sua participação, os seus ritmos e os seus tempos.”

Cid Simões

Read Full Post »

Older Posts »