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Posts Tagged ‘matias aires’

O mundo não foi feito mais em benefício de uns, que de outros: para todos é o mesmo; e para uso dele todos têm igual direito.
Matias Aires
(Reflexões sobre a vaidade dos homens – 1750)

Quem nos havia de dizer?!… Uma retoma  que nos apresentavam bem parecida, rosadinha, digo, laranjinha, aparentemente tão saudável, com um check-up aprovado na Assembleia da República… electrocardiograma com prova de esforço feito no difícil exercício de sobreviver!

Parecia vender saúde e, no entanto, fomos encontrá-la desfalecida num local pobre da cidade, o “Beco da Pouca Sorte”.

Eu vi tudo. Foi assim: – explicava um sujeito magrito – ela vinha pelo braço daquele ceguinho e, pumba! Caiu.”

O populacho delira com estes espectáculos porque pode participar, lançar as suas “bocas“, e aparecem a tal velocidade que ficamos sem saber se já lá estavam antes do acontecimento. Espectadores com lugares cativos no seu bairro, na grande cegada do Carnaval de todos os dias.

Deu-lhe um fanico? – interroga uma velhinha que antes de receber a resposta já dava a receita – soprem-lhe nas ventas“.

Devem ser gases. O clister de malvas alivia-me muito” – Confessa um mirone.

Ca’ganda padrada” – Sussurra o Tóze à garina que o acompanha.

“Atirem-lhe mas é com um balde d’água ao focinho” – indica um tipo de palito ao canto da boca.

Não há sangue no chão?” – pergunta sequioso um leitor de “O Crime“.

Chamem o 112!

Qual 112, nem meio 112, intervém um cliente da tasca em frente – dêem-lhe mas é um bagaço qu’ela arrebita logo.

Entretanto um tipo bem vestido procurava encontrar alguém a quem entregar um cartão: “Troika Unida Lda – funerais em toda a União Europeia”.

De retoma e de louco todos temos um pouco” – diz um tipo que não tinha percebido nada do que se estava a passar.

Um senhor bem parecido, perguntou ao ceguinho: “É a retoma da agricultura ou da indústria?

A resposta veio célere da vizinha que estava à janela: “Qual agricultura, qual indústria. É a Retoma cá do bairro, trabalha naquela esquina da meia-noite às sete da manhã. Vossemecê não vê que esta é uma retoma pobrezinha que o governo mandou cá p’ro Beco?

Assim como para os automóveis, a retoma dos pobres devia ter seguro contra todos os riscos. Não estávamos sujeitos a isto. Quando pensamos estar no melhor dos mundos, catrapus! Lá fica a retoma de pantanas. Andamos sempre com o “coração a cair aos pés“, calafrios constantes, uma aflição!” – disse muito irritado o magrito que assistiu ao fanico.

Os pobres nunca tiveram nada – é por isso que são pobres, – ouviu-se à mistura com uma gargalhada – e quando em 74 iam começar a ser menos pobres o Bochechas passou-lhes uma rasteira… O que é que eles têm agora para retomar? Nada!

Retoma próspera, boazona de belas nalgas, é a da Quinta da Marinha. Pavoneia-se pelos casinos, tem guarda-costas e guarda-peitos, vive na alta finança, protegendo todos os que retomaram o poder, uma retoma de fabricar ricos.

É por isso que acho errado afirmar-se que a retoma em Portugal não é uma realidade; Que o digam os Amorins, os Soares dos Santos ou os Belmiros.

A sua retoma (deles) dá-lhes tudo ao desbarato, como se estivessem numa loja que vai mudar de ramo.

Os que trabalham retomam os sacrifícios de todos os dias, os sempre bem instalados na vida, retomam mais prepotência, mais ganância, mais viscosidade.

A retoma é uma ampulheta em que um dos vasos só enche com o conteúdo do outro.

Os 10 Mais Ricos de Portugal segundo o Expresso.Economia

1. Américo Amorim: 2587,2 milhões de euros

2. Alexandre Soares dos Santos: 1917,4 milhões de euros

3. Belmiro de Azevedo: 1297,6 milhões de euros

4. Família Guimarães de Mello, 1006,6 milhões de euros

5. Família Alves Ribeiro: 779,7 milhões de euros

6. Perpétua Bordalo da Silva e Luís Silva: 679,7 milhões de euros

7. Rita Celeste Violas e Sá, Manuel Violas: 650,6 milhões de euros

8. Maria do Carmo Moniz Galvão Espírito Santo: 645,8 milhões de euros

9. Família Cunha José de Mello: 638 milhões de euros

10. António da Silva Rodrigues: 551 milhões de euros

Cid Simões

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A pobreza, e a obediência quem a conserva é por força.”

Matias Aires

(Reflexões sobre a vaidade dos homens)

As imagens gravadas a fogo de emoção instalam-se, com tamanho vigor na memória, que delas dificilmente nos podemos libertar:

Calçada íngreme, o macho, atrelado à carroça repleta de pedra tentando conquistar o percurso impossível, as ferraduras sem apoio faiscando, e o animal impotente não conseguia avançar. O carroceiro, dando ao termo o significado mais pejorativo, praguejava e de chibata em riste flagelava, a golpes de raiva incontida, o animal indefeso. Numa tentativa para continuar a marcha, as patas dianteiras fraquejaram, ficando ajoelhado, preso aos varais, como alguém que implora piedade. Celerado, o monstro desce da carroça e com o cabo do chicote descarrega toda a brutalidade sobre o animal prostrado, procurando que o pobre se levante para continuar o calvário, e, porque não o consegue, num paroxismo de barbárie, com ambas as mãos em tenaz, agarra o focinho do macho e morde-o demorada e ferozmente.

Pareceu-me que o animal chorava; eu, que ainda nem sequer frequentava a primária, fugi soluçando. A imagem persegue-me sempre nas horas de injustiça que, na generalidade, se abate sobre os mais fracos.

Passados alguns anos, na primavera da minha juventude, deparo com um polícia que espancava com o cassetete um bêbado que nem forças tinha para se levantar. Intervim! Fui preso juntamente com o ébrio. Julgado sumariamente e condenado a dez dias de prisão; impulso decisivo para consolidar opções e solidificar, para sempre, a revolta consciente.

A personalidade baliza-se por miríades de aparentes pequenos nadas e, assim, aos poucos, vamos construindo a escala de valores que, uma vez assumida, forçoso é cumpri-la. E é neste compromisso que encontramos o nosso próprio equilíbrio.

Sempre recusei partilhar com o carroceiro ou o polícia de então o caminho deslizante para a ignomínia, colocando-me na rampa íngreme e difícil a caminho da justiça e da liberdade.

Hoje, assisto e resisto aos golpes de chicotes-lei, revestidos de pergaminhos democráticos, onde os poderosos zurzem aqueles que lhes puxam a carroça dos cifrões com vocábulos melífluos e, sem escrúpulos nem piedade, tentam impor-lhes caminhos escorregadios atulhados de fraudes, a caminho da burra dos banqueiros.

Em nome da modernidade, dilata-se e aprofunda-se, cada vez mais, o fosso entre os que nada têm e os que tudo açambarcam, a classe média, os pequenos comerciantes, agricultores e industriais junta-se aos assalariados para onde, aos poucos, vão escorregando também as profissões liberais. E todos estes trabalhadores, para que possamos ser competitivos, deverão nivelar salários e direitos, dolorosamente conquistados, pelos dos países onde se trabalha por dez réis de mel coado. E dentro de uma lógica redutora, escabrosa, desumana, para sermos cada vez mais atractivos aos investidores, teremos que nos despojar de tudo o que nos distingue da pobre besta que me fez chorar.

O talentoso Alphonse Daudet, na colectânea de contos reunidos em ‘Lettres de Mon Moulim’ brinda-nos com “La mule du Pape” a qual com ou sem rancor, esperou sete anos para, no local exacto e no momento preciso, usar a única mas poderosa arma que lhe fora concedida: o coice.

Não percamos a esperança; há em cada um de nós a paciência e a força da célebre mula papal, com uma importante diferença: hoje tudo se passa a grande velocidade.

Os carroceiros chegaram ao poder, há que afinar o coice.

É URGENTE!

Cid Simões

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«Não há nada isento de revoluções, e alterações do mundo; tudo nele se muda, porque tudo se move; por isso a firmeza é violenta, ao mesmo tempo que a inconstância é natural.»
Matias Aires

A rotina aí está: enfadonha, amorfa, insípida. O que poderia ser um excelente pretexto para manifestarmos os nossos profundos sentimentos de solidariedade actuante e permanente, não vai além da ladainha habitual, despersonalizada, frouxa, sem alma. Boas-festinhas nha-nha-nhá, com o mesmo jerico e as receitas requentadas nos bilhetes-postais do costume, escritos em inglês, francês, espanhol, alemão, pois claro, cirílico, árabe e japonês que, pela grafia se depreende, ou ainda a blogosfera inundada de mensagens com bonequinhos saltitantes e inexpressivos.

Este ano o meu bilhete de boas-festas será ilustrado com um bispote. O vaso em questão, bacio, doutor ou penico, deixo o vocábulo ao vosso gosto, é o símbolo mais eloquente da civilização e do momento histórico que estamos vivendo.

Provocação; insensibilidade; mau gosto?

Provocação seria enviar-vos as boas-festas sem esboçar um gesto de revolta face aos crimes que, neste preciso momento, estão a ser cometidos, ou cooperar na farsa dos que, para alijar a conscienciazinha, deixam à saída do supermercado um baguito de arroz, um pacote de bolacha maria e a alma aliviada.

Insensibilidade seria também não corar de vergonha ao assistir a peditórios para “dar de comer a quem tem fome”. Fome, artimanha do destino, espécie de flagelo incontrolável, catástrofe natural ou crime contra o qual se esgrime com pipocas, coca-cola e uns torrões de açúcar, sem que, por cobardia intelectual, física, social ou pela cómoda inércia que usa óculos fumados não coloca a questão: Porquê a fome?

Mau gosto seria ignorar ou achincalhar a clássica questão colocada por Almeida Garrett: “quantos pobres são necessários para fazer um rico?”. Quando é sabido que um só homem, neste momento, possui uma fortuna superior a mais de uma dezena de países do dito terceiro mundo, países onde morrem à fome milhões e milhões de crianças e, face a este genocídio, friamente organizado, à porta dos supermercados, deixar-lhes uns brinquedos, saquinhos de rebuçados e algum dó, é mais cómodo do que gritar: assassinos! Ou ir para a rua alertar para o crime e dizer onde se encontram os seus algozes.

Com o óbolo pio, um pacotinho de Bolacha Maria, por exemplo, seguem reconfortadas as boas almas a tempo de não perder o fio às telenovelas que limitam as preocupações, o raciocínio e a inteligência, no casulo morno do doce lar. Se a fome algum dia lhes bater à porta… logo se verá.

Tão-pouco se apercebem que a esmola oprime, despersonaliza e ofende quem a recebe, deixando no “benfeitor” o rasto pastoso de gestos a esconder.

Provocação ainda seria desejar boas-festas, a seco, a todos os desempregados, às famílias que passam fome, aos que são obrigados a emigrar e a todo um povo deste país que tem criminosos no poder.

O mundo está uma arrastadeira, um caneco onde me recuso viver de braços caídos. Prometo-te amigo, cidadão, camarada que lutarei até ao limite das minhas forças pela conquista da dignidade usurpada, pela justiça escarnecida, onde o ser humano seja o sujeito das nossas preocupações, o objecto e o objectivo das nossas vidas, para que um dia possamos trocar as boas-festas sem o terror da incerteza a esmagar os nossos sonhos.”

Nota: em virtude da crise o Papa suprimiu do presépio o burro e a vaca.

Cid Simões

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A RC segue paulatinamente o seu trajecto e os jornais lá lhes vão fazendo boca a boca para lhes permitir mais uns tempinhos de “vida”. «PS e Renovação Comunista procuram convergências à esquerda» «Renovação Comunista recomenda a PS convergência à esquerda».

Entretanto, e recordando onde se têm alojado os ‘ex’ de esquerda, sempre dispostos a dispararem flechas ao seu próprio passado, lembrei-me deste texto que aqui vos deixo.

A expiação ou a síndrome de ‘ex’

“Mudamos de lugar, mas não mudamos de mundo”.
Matias Aires

Os mais acirrados inimigos do fumador são os ex-fumadores que, para se exorcizarem de um passado que interiorizaram e de que não se conseguem libertar, agridem todos os que usufruem de um prazer que rejeitaram.

São temíveis os que sofrem da «síndrome de ‘ex’». Estes enfermos vivem aterrorizados pelo facto de não conseguirem ‘ser‘, por se sentirem perseguidos e apagados pela sombra do que foram e, para procurarem libertar-se dos fantasmas que os flagelam, quais quixotes, esgrimem contra o seu passado procurando, sem o conseguirem, afirmar-se no presente.

O ‘ex‘ não é, foi. E neste axioma reside o seu drama.

Há os ‘ex‘ que cansados, com dignidade, baixaram os braços desistindo da luta, outros não resistem sem dar a sua ferroada quando as mudanças climatéricas lhes avivam os humores, mas outros há que, com armas e bagagens, fazendo-se acompanhar por todo o folclore da comunicação social, orquestrada pela SIC ou CIP, é igual, mudaram de trincheira, renegando tudo pelo que pugnaram e passando a defender e impor o seu contrário.

Quando de um debate televisivo apresentaram a euro-deputada Ilda Figueiredo, tendo à sua direita Vital Moreira e à esquerda Miguel Portas, a reacção dos que me rodeavam não se fez esperar: “olha os dois ex-comunistas“. E serão sempre, porque nessa situação se afirmaram e foram respeitados. Hoje sentem-se humilhados pelo modo irónico como são referidos e sem o respeito que lhes foi devido, daí os seus ódiozinhos cegos, as provocações venais e o constante gotejar de veneno contra os que se mantêm firmes nas suas convicções.

Pode eliminar-se o ferrete nas alimárias, mas as marcas persistem nas cicatrizes sempre incomodativas e, por vezes, dolorosas que, provocando irritações constantes, fazem-nas perder o controlo emocional, escoiceando sempre que confrontadas com alguma sonoridade que lhes recorde o passado, tornando perigosos os seus arremessos.

Os ‘ex‘ nos seus desvarios sentem-se flagelados por obsessões de expiação, como se crimes tivessem cometido e, besuntando-se com unguentos, seguidos de duches frios, expõem-se nus ao luar. Esta patologia está oficialmente reconhecida como a «síndrome de ‘ex’».

Sonham com o convívio leal e a fraternidade que nunca mais encontraram e desviam o olhar ao cruzarem-se com aqueles ao lado dos quais lutaram contra os que hoje defendem.

No seu novo estatuto, e porque sabem que são elementos descartáveis, excedem-se nos meios que utilizam e, assim, de degrau em degrau descem às mais reles provocações procurando a humilhação e nesse exorcismo aliviar a carga emocional acumulada.

Um bom ‘ex‘ que se preze escreve um livro de catarse, sendo-lhe atribuído lugar cativo nos jornais ditos de referência como cronista, politólogo ou fazedor de opinião. É chamado para debates ou combates ou, simplesmente, para lançar alguns disparates nas televisões.

Os ‘ex‘ de renegados num ápice são promovidos a heróis, ex…cepcionais.

A convergência mora aqui e chama-se LUTA

Cid Simões

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A RAMPA

A pobreza, e a obediência quem a conserva é por força.”

Matias Aires

(Reflexões sobre a vaidade dos homens)

As imagens gravadas a fogo de emoção instalam-se, com tamanho vigor na memória, que delas dificilmente nos podemos libertar:

Calçada íngreme, o macho, atrelado à carroça repleta de pedra tentando conquistar o percurso impossível, as ferraduras sem apoio faiscando, e o animal impotente não conseguia avançar. O carroceiro, dando ao termo o significado mais pejorativo, praguejava e de chibata em riste flagelava, a golpes de raiva incontida, o animal indefeso. Numa tentativa para continuar a marcha, as patas dianteiras fraquejaram, ficando ajoelhado, preso aos varais, como alguém que implora piedade. Celerado, o monstro desce da carroça e com o cabo do chicote descarrega toda a brutalidade sobre o animal prostrado, procurando que o pobre se levante para continuar o calvário, e, porque não o consegue, num paroxismo de barbárie, com ambas as mãos em tenaz, agarra o focinho do macho e morde-o demorada e ferozmente.

Pareceu-me que o animal chorava; eu, que ainda nem sequer frequentava a primária, fugi soluçando. A imagem persegue-me sempre nas horas de injustiça que, na generalidade, se abate sobre os mais fracos.

Passados alguns anos, na primavera da minha juventude, deparo com um polícia que espancava com o cassetete um bêbado que nem forças tinha para se levantar. Intervim! Fui preso juntamente com o ébrio. Julgado sumariamente e condenado a dez dias de prisão; impulso decisivo para consolidar opções e solidificar, para sempre, a revolta consciente.

A personalidade baliza-se por miríades de aparentes pequenos nadas e, assim, aos poucos, vamos construindo a escala de valores que, uma vez assumida, forçoso é cumpri-la. E é neste compromisso que encontramos o nosso próprio equilíbrio.

Sempre recusei partilhar com o carroceiro ou o polícia de então o caminho deslizante para a ignomínia, colocando-me na rampa íngreme e difícil a caminho da justiça e da liberdade.

Hoje, assisto e resisto aos golpes de chicotes-lei, revestidos de pergaminhos democráticos, onde os poderosos zurzem aqueles que lhes puxam a carroça dos cifrões com vocábulos melífluos e, sem escrúpulos nem piedade, tentam impor-lhes caminhos escorregadios atulhados de fraudes, a caminho da burra dos banqueiros.

Em nome da modernidade, dilata-se e aprofunda-se, cada vez mais, o fosso entre os que nada têm e os que tudo açambarcam, a classe média, os pequenos comerciantes, agricultores e industriais junta-se aos assalariados para onde, aos poucos, vão escorregando também as profissões liberais. E todos estes trabalhadores, para que possamos ser competitivos, deverão nivelar salários e direitos, dolorosamente conquistados, pelos dos países onde se trabalha por dez réis de mel coado. E dentro de uma lógica redutora, escabrosa, desumana, para sermos cada vez mais atractivos aos investidores, teremos que nos despojar de tudo o que nos distingue da pobre besta que me fez chorar.

O talentoso Alphonse Daudet, na colectânea de contos reunidos em ‘Lettres de Mon Moulim’ brinda-nos com “La mule du Pape” a qual com ou sem rancor, esperou sete anos para, no local exacto e no momento preciso, usar a única mas poderosa arma que lhe fora concedida: o coice.

Não percamos a esperança; há em cada um de nós a paciência e a força da célebre mula papal, com uma importante diferença: hoje tudo se passa a grande velocidade.

Os carroceiros chegaram ao poder, há que afinar o coice!

Cid Simões

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O engano vestido de eloquência, e arte, atrai, e a verdade mal polida nunca persuade.”

Matias Aires

É uma minúscula Freguesia de um pequeno Concelho; e este microcosmo social e político absorve e cultiva toda a retórica e esmiúça as subtilezas da arenga política, nascida e levedada nos laboratórios das grandes urbes.

A campanha eleitoral espreita e vai demarcando o seu espaço ideológico, delineando estratégias, marcando ritmos. Abertas e orgulhosamente claras, ou vergonhosa e envergonhadamente encapotadas e obviamente torpes, as mensagens estão.

Cada vocábulo é um projéctil concebido à medida do alvo a atingir; a tortuosidade implícita nas frases ambíguas abre espaço à lengalenga enfadonha de lugares-comuns e, pior ainda, o não dito de raiz venenosa lança a dúvida contra a qual nãodefesa possível.

A trapaça, porque poluente, envolta em plásticos sujos de meias verdades, ou como Óscar Lopes tão bem a observa e define: “a consciência de que a intrujice ideológica, ou outra, actua quase sempre, não pela mentira em estado puro mas por meios de composição ou montagem, empolando pequenas coisas e minimizando as realmente características”, espalha-se qual mancha de óleo.

E os tartufos, usando argumentos sinuosos, deliberadamente imprecisos, jogam com subentendidos de difícil, se não impossível descodificação; apresentam-se, normalmente, como ignorantes na matéria que eles próprios chamam à liça; assumem-se como não participativos, e para estes farsantes, todo o cidadão que se disponibiliza para cooperar na vida democrática é de imediato rotulado: “são todos iguais”, intróito-escudo à prova de toda ou qualquer tentativa de conversa ou discussão coerentes.

Curioso é observar que epítetos comosão todos iguais ou o que eles querem é tacho” surgem nos locais onde é fraca a implantação das forças afectas a quem utiliza este discurso e, dada a incapacidade de pugnar por propostas justas, enveredam pelo trabalho de sapa, procurando minar o terreno alheio.

Estas calúnias, sem ponto de mira nomeado, mas de alvo bem definido, têm raízes profundas que buscam o seu sustento nas fossas do antigamente. Por curioso que pareça, não conheço alguém que tivesse sido incomodado por achincalhar a política e demonstrar desdém por esta actividade. Era furiosamente perseguido quem ousasse criticar os governantes, mas nunca por denegrir os políticos e muito menos a actividade política em geral.

Na impossibilidade de, abertamente, defender a política que sufragam nas urnas, há quem enalteça os movimentos de cidadania. Descoberta relativamente recente desta nossa qualidade de sermos cidadãos onde quer que estejamos, ou tentativa grosseira para fomentar o individualismo e esvaziar de conteúdo ideológico de quem quer que de boa os acompanhe.

Em minúsculas Freguesias ou Concelhos, no País, as populações desmobilizam. O terreno é propício à abstenção. Depois, depois os mesmos que propagam a confusão, ufanos, repetem a ladainha de que o povo está farto.

Farto de quê, e de quem?

Cid Simões

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