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Posts Tagged ‘ministro’

«(…) os partidos reaccionários, pela natureza inconfessável dos seus fins, são os partidos da mentira.

Nenhum dos governos de direita e nenhum dos partidos seus componentes ousou dizer a verdade acerca dos objectivos da sua política. Todos os seus actos e todas as suas medidas foram e são apresentados com extenso rol de mentiras elaboradas, planeadas e sistematizadas. (…)

A mentira é parte integrante, constitutiva, intrínseca, permanente, da política dos governos de direita e dos partidos que nestes participam. Tornou-se uma prática que se insere com desfaçatez e cinismo na completa falta de escrúpulos morais desses governos e partidos.»

Estas palavras, escritas por Álvaro Cunhal em 1985 no seu conhecido ensaio «O Partido com paredes de Vidro», estão mais actuais que nunca.

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António Vilarigues

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Sentado, bandeira nacional e da U.E. dando o aval indispensável ao discurso, o senhor ministro, através da TV, banhou-nos de justiça: A partir de agora (porquê só agora?), acabava-se a lavagem de dinheiro. Tal e qual! Não eram renovados mais alvarás para tão higiénica actividade.

Alertou ainda, haver somas exorbitantes que estavam a ser lavadas em bancos, seitas, casinos e noutras lavandarias de igual respeitabilidade.

Deixou um oportuno alerta: Era de desconfiar quando alguém aparecia com muito dinheiro.

Tudo novidades! Não creio mesmo que alguma vez se tivesse ousado pensar que não era lícito o dinheiro quando surge às golfadas, ainda manchado de sangue.

Tal notícia levou a que no bairro, para não levantar suspeitas, ninguém ousasse pagar com notas de cinco euros, batatas só compravam aos meios quilos e a manteiga aos pacotinhos de 125g. Os vizinhos vigiavam-se desconfiados. A dona Gertrudes nunca mais vestiu o casaco de caraculo (100% polyester), e o Mário da mercearia nem estreou o chinó.

Para chatices, diziam, já bastava as que tinham, não viesse a bófia pedir-lhes contas e saber se tinham ou não o dinheiro para lavar.

Uma outra personagem, o senhor Júlio, ainda não se refizera do choque. “Lavar” dinheiro!?… Com o prato da sopa a meio caminho da notícia, perdera o apetite. Lavar dinheiro!…

Ele e a sua Joaquina que não haviam feito outra coisa em toda a sua vida: Lavar. Ele lavou barcos, lavou ruas, lavou carros, lavou tudo. Tudo o que encontrou sujo lavou, desengordurou, poliu. E a sua companheira, fez barrela, branqueou, esfregou casas, escadas, tudo. Tudo o que estava sujo, lavou. E o que é que têm hoje? Uma reforma suja, para não lhe chamar nojenta.

Mas essa de lavar dinheiro até podia servir de biscate, pensava o senhor Júlio que abandonou a sopa e foi até ao banco do jardim procurar alguém que o elucidasse sobre tão bizarra notícia.

E ia cogitando: “Isto deve estar muito mau! Os ricos a lavar… Eles que por onde passam só fazem imundice.”

E continuava sonhador: “O ministro desconfia dos bancos e das seitas é natural, ninguém sabe como conseguiram tanto dinheiro em tão pouco tempo; mas o Júlio!… O Júlio e a Joaquina todos conhecem cá no bairro. Foram sempre pessoas sérias. O senhor ministro pode confiar mais num dedo do Júlio do que em todos os banqueiros. Todos.”

E já idealizava uma lavandaria moderna, subsidiada pela U.E. máquinas de lavar, secar, passar… Um brinquinho!

Pobre senhor Júlio, de consciência asseada, que só soube amealhar miséria durante toda a sua vida. Não! Ele nunca conseguirá compreender, na sua bela simplicidade, que a sujidade não está no dinheiro, mas nas mãos de quem dele se apoderou.

E que esse dinheiro quando muda de bolso não troca de fato, ou se muda de farpela não altera o seu objectivo: Continuar do mesmo modo a espalhar o terror e a sordidez na bulimia sem limites do mais e mais, despedindo, fechando fábricas e entrando no sub mundo da especulação.

Tampouco se apercebe que os donos dos bancos são os banqueiros, os concessionários dos casinos, os grandes magnates, banqueiros também alguns deles, bondosas criaturas que acolhem no seu seio, digo, sua teta, todos os que estejam à venda, melhor ainda se estão em saldo, projectando-os na vida política como seus servidores.

E que os senhores do dinheiro possuidores dessas respeitáveis instituições de caridade, são os “jet-Set” que se pavoneiam pelas colunas sociais de mistura com ministros, proprietários sinistros e outros benquistos do poder, num mundo que o senhor Júlio nem imagina que exista.

Milhões e milhões de euros, lavados ou por lavar, continuam a entrar em circulação como de trocos se tratasse, sem que ninguém dê por eles. Ninguém?…

Não será nas grandes e galopantes fortunas que os vamos encontrar.

Claro que não!

Cid Simões

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Eu não estou aqui para enganar ninguém!
(De um charlatão anónimo)

Num cesto transporta a cobra. Se há cobra, a “banha” é forçosamente de confiança, proveniente de réptil certificado pela ASAE, confirmação incontestável do produto. Cobra tão necessária ao charlatão, como a todos os que duvidando da aceitação do seu discurso, apontam para a companheira e exclamam: “Está aqui a minha mulher que me não deixa mentir.” E a pobre, não diz que sim nem que não, limita-se a sorrir. Ai dela!

O rapaz de dentes sujos, e o homem de perna encolhida que depois de besuntada fica mais comprida, fazem parte da bagagem.

Juntar à tralha para o espectáculo a descontracção necessária a todo o embusteiro: fluente, afirmativo, sorridente, em suma, o perfil de aparente credibilidade colada a um pantomineiro, tal como modernamente especialistas de imagem são exímios em fabricar. Embora muitos governantes nem para isso tenham jeito.

Na ponta de um cordel caminhava um rafeiro, (o bonito), “Um pobre cão vadio, que não tinha coleira e não pagava imposto” como diria o velho Guerra Junqueiro. Era uma novidade neste tipo de espectáculo, mas como o lanzudo não parava de se coçar, ficava a dúvida se não seria unicamente o transporte das pulgas.

O “artista” enrolou a cobra ao pescoço, arregaçou as mangas, fez soar a pandeireta e como qualquer ministro, Presidente ou banqueiro atrevido, afirmou a plenos pulmões:

Não vim aqui para enganar ninguém!

E para dar credibilidade à afirmação e marcar as diferenças, começou por afirmar:

Movimento-me livremente por todas as ruas e vielas, não tenho guarda-costas e canto a Grândola Vila Morena porque me enche a alma.

O meu nome não anda arrastado pela lama nem a apodrecer em tribunais. Cumpro as minhas obrigações para com o fisco a Segurança Social e pago os meus impostos directos no pó para o cão das minhas pulgas e no casqueiro de que me nutro.

Não vim aqui para enganar ninguém!” repete.

E continua ainda com mais vigor: “Sou um homem honesto”. E virando os bolsos do avesso, exclamava:

Podem confiar em mim e no “bonito”, não estamos aqui para enganar ninguém, não vivo na Casa da Coelha, Cabo Verde, nem estudo filosofia em Paris.

A multinacional farmacêutica Suiça prometeu-me um lugar de presidente se lhe desvendasse a formula da minha banha da cobra, mostrando-me que já tinham dado emprego a um ex-primeiro-ministro muito mais aldrabão do que eu.

Respondi-lhes simplesmente que eu sou um aldrabão honesto, e a conversa ficou por aqui.

O cão sacudiu-se, e face à negação de um futuro tão promissor, as pulgas hesitaram se haviam de mudar de cão. Há pulgas que saltitam de cão para cão consoante as conveniências.

O homem parou de tocar a pandeireta, abriu a camisa, voltou-se para o público, e, teatral, convidou ainda: “Procurem à vontade; nada tenho a esconder”! “Os milhões do BPN não passaram por aqui, nem encontram vestígios de submarinos ou de outras grandes burlas. Nós, eu e o “bonito”, não roubamos nada a ninguém.

A cobra dava sinais de cansaço. As cobras não apreciam o rastejar humano. E o homem terminou: “A mim já todos me conhecem, sou oficialmente um charlatão, e o meu “bonito” a minha cobra, o deleite das crianças, somos estimados pelo povo.

Fez uma vénia de despedida e agradecimento, e circunspecto alertou:

Cuidado com a concorrência!” Presidentes, Ministros e conselheiros-embusteiros.

Olho neles! São piores que as víboras.

Cid Simões

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OS JESUÍTAS

Espécie de bolos folhados com recheio, em forma de triângulo isósceles”(de – O Pasteleiro e a Geometria)

Na fábrica, devido a um atraso na entrega de materiais, dispensaram-na mais cedo. O almoço havia sido magro. Estava cansada, não propriamente uma fatiga física; sentia-se abatida, prostrada, envolta numa preocupação que a apertava, um mal-estar indefinido.

Entrou num café, sentou-se e pediu uma bica para justificar a ocupação da mesa. Apetecia-lhe um bolo, mas preferia partilhar esse prazer logo que o filho chegasse da escola. Tinha que esperar ainda duas horas por ele e… tanto para fazer em casa!…

Deu por si a mexer o café e, só depois, se apercebeu que se esquecera de o açucarar. Como é costume dizer-se, “não estava lá.” Não!

Procurava encontrar solução para o resto da semana em que muito provavelmente não poderia ir esperar o filho à saída da escola, e também não o deixaria assim ao deus-dará!

Enquanto cismava, reparou numa travessa de jesuítas no balcão-vitrina, brilhantes, apetecíveis. Resistiu à tentação, havia prometido a si mesma esperar pelo filho.

Entretanto, ia tentando lembrar-se de alguém que a pudesse ajudar, mas sem resultado. O marido trabalhava longe, estava a prazo e procurava assegurar o emprego e também não tinha hora certa de saída.

Como? Quem?!

Invadia-a uma grande debilidade, sentiu-se desfalecer. Pensou que fosse fraqueza.

Voltou a olhar para os jesuítas. Porquê jesuítas? — procurava abstrair-se da sua principal preocupação jogando com as palavras – aos bolos poder-lhe-iam ter chamado “loiolas”, “hipócritas” ou “ardilosos”.

Mas a obsessão voltava cada vez com mais intensidade: o banco de horas, o filho e a impossibilidade de o acompanhar à escola e… os jesuítas; os bolos e os outros.

Na mesa ao lado uma senhora lamentava-se: O marido, motorista do senhor ministro, chegava a desoras a casa porque tinha que levar e esperar pelos meninos na discoteca.

Uma necessidade insuportável de respirar fundo e um aperto dorido no peito sufocava-a. Pediu um copo com água sem já ser ouvida; suores frios, sons distantes, um clarão e as trevas.

De imediato, todos se inquietaram com o episódio, ninguém no café deixou de manifestar a sua preocupação, dar os seus palpites, chamar o 112, obrigá-la a beber o inevitável copo de água, lamentar o sucedido.

Solícitos e de consciências tranquilas, cada qual levou para casa um episódio que relatou à sua maneira, fazendo jus, certamente, à sua participação no incidente.

Se a algumas das prestimosas criaturas, lhes tivessem dito que este era um dos muitos resultados do pacote laboral, ir-se-iam esgueirando comprometidas, sub-repticiamente, cobardemente porque não há ninguém que se não sinta culpada.

É muito mais cómodo chamar o 112 ou dar um copo de água, sobretudo a alguém que só tem sede de justiça.

Cid Simões

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Não pode ser ministro alguém que nos manda apertar o cinto e ao mesmo tempo baixar as calças.

Têm aparecido falsos padres que no entanto baptizam e dão a extrema-unção; falsos médicos que tal como os verdadeiros curam ou matam consoante o aleijão; falsos advogados que libertam ou mandam o cliente para a prisão e muita moeda falsa que vai servindo consoante a ocasião. Surgem às paletes falsários de todas as estirpes, gente que se faz passar pelo que não é mas que até parece ser.

Este manguelas que nos aparece assim à má fila, encomenda mal amanhada que não se sabe bem para o que serve nem ao que vem, isso a que chamam ministro, conclui-se que não veio por bem.

As medidas que usa quantificam unicamente o veneno a aplicar à vitima escolhida e os cortes são próprios de magarefe. Até hoje não se conhece um único fruto do Pereira. Esta pereira só nos dá castanha.

Urge prevenir a PJ para que verifique se esta espécie de romancista e articulista não será um falso ministro, até porque “a política não estava nos seus planos”.

Segundo o próprio, logo que chegou “Nos primeiros dias passava a vida a apagar luzes. Não havia consciência nenhuma do dinheiro que se gasta desnecessariamente em ar condicionado, em iluminação… comecei a instaurar um espírito e sentido de rigor. Temos que nos comportar como se fosse a nossa casa, sem maus gastos“, assegura.

É urgente saber se não teriam trazido de Vancouver o amanuense do estabelecimento onde hipoteticamente tivesse existido um candidato a ministro.

Entretanto, e como medida de precaução, é melhor interná-lo, o homem pode cometer qualquer loucura que lhe sugiram e temos que ter em conta que está rodeado de malfeitores, gente alienada e desprovida de sentimentos.

Eu sou
o mais boquiaberto
dos ministros.

Estas finanças
doem
como um calo.

Estas finanças
devem ser um galo
cantando o ouro
que urinam
as crianças.

Estas finanças
devem ser um falo
ubérrimo Brasil
de esquálidas
donzelas.

[Armando da Silva Carvalho, in Ovos d’oiro, 1969]

Cid Simões

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