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“Este capitalismo está a gerar uma revolta profunda nas massas espoliadas”
“DN” Mário Soares

O carteirista, acossado pela polícia, gritava esbaforido: Agarra… agarra que é ladrão! E na corrida célere, os populares que se lhe juntavam em uníssono repetiam: Agarra que é ladrão! O larápio deu-lhes a dianteira, parou, e ficou vendo os lorpas a correr na peugada da sua própria sombra. E embora mal refeito do susto, o ratoneiro ria, ria até às lágrimas.

O expediente é por demais conhecido e, tal como no conto-do-vigário, o povaréu é apanhado pelo ludíbrio sem fazer o mínimo apelo à reflexão, e os gabirus, sempre atentos, disso se aproveitam.

Este” capitalismo não presta. Calculem!… Larguem-lhes os cães! Ou vão à “Fundação Mário Soares” para a qual contribuímos com os nossos impostos. O “outro” capitalismo, quiçá o dos velhos Mellos, Espíritos Santos e Cia – ou será que é o mesmo? Ou sendo o mesmo “este capitalismo” está cada vez pior?

E os “espoliados” lá vão correndo, sem sentido, sob o olhar finório e atento de quem tem sido suporte de “este”, filho legítimo do “outro”, neto e bisneto do único capitalismo.

E os maraus riem, riem a bom rir.

O necessário é que os incautos espoliados corram atrás do pregão, insultem até o pregoeiro, desde que não o molestem.

As despesas extraordinárias dos submarinos vão ser pagas com receitas obtidas com a transferência do Fundo de Pensões da PT para o Ministério das Finanças. Submarinos que trazem à tona a corrupção em que três gestores alemães e sete portugueses estão acusados de burla qualificada, falsificação de documentos e suborno. Os alemães já foram condenados. Os portugueses continuam a navegar à bolina.

Dir-me-ão. E o que tem a ver o capitalismo com esta gente?

E os swaps, por exemplo, são fruto de que sistema?

Do “socialismo democrático” dirão alguns, outros apelidam-no de “socialismo de rosto humano”. Máscaras do imperialismo sem rebuços.

As «Ajudas aprovadas em 2009 pelo governo: Dois terços da ajuda anti-crise 2,2 mil milhões de euros (61%) foram parar ao sector bancário e 1% para apoio ao emprego».

O lucro da EDP aumentou 4% no primeiro semestre de 2013, face a igual período do ano passado, para 603 milhões de euros”. Seis meses. Lucros!… E os que correm atrás da notícia não se apercebem, ou não se querem aperceber, que esse dinheiro saiu dos próprios espoliados, que a empresa lhes pertencia, que todo esse benefício poderia reverter a favor do bem-estar colectivo: ensino, saúde, segurança na velhice…

Causa e efeito, e porque tal obriga a reflectir, e reflexão feita, leva a procurar concluir, e das conclusões apuradas encontrar o gerador principal da questão que se procurou esclarecer, o que é forçosamente incómodo.

Entretanto, os figurões luxuosamente instalados, vão gritando: Agarra… agarra que é… E por entre contestações, gritos e apupos vão enxugando as lágrimas… de tanto rir.

Não esqueçam que o último a rir…

Cid Simões

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A pobreza, e a obediência quem a conserva é por força.”

Matias Aires

(Reflexões sobre a vaidade dos homens)

As imagens gravadas a fogo de emoção instalam-se, com tamanho vigor na memória, que delas dificilmente nos podemos libertar:

Calçada íngreme, o macho, atrelado à carroça repleta de pedra tentando conquistar o percurso impossível, as ferraduras sem apoio faiscando, e o animal impotente não conseguia avançar. O carroceiro, dando ao termo o significado mais pejorativo, praguejava e de chibata em riste flagelava, a golpes de raiva incontida, o animal indefeso. Numa tentativa para continuar a marcha, as patas dianteiras fraquejaram, ficando ajoelhado, preso aos varais, como alguém que implora piedade. Celerado, o monstro desce da carroça e com o cabo do chicote descarrega toda a brutalidade sobre o animal prostrado, procurando que o pobre se levante para continuar o calvário, e, porque não o consegue, num paroxismo de barbárie, com ambas as mãos em tenaz, agarra o focinho do macho e morde-o demorada e ferozmente.

Pareceu-me que o animal chorava; eu, que ainda nem sequer frequentava a primária, fugi soluçando. A imagem persegue-me sempre nas horas de injustiça que, na generalidade, se abate sobre os mais fracos.

Passados alguns anos, na primavera da minha juventude, deparo com um polícia que espancava com o cassetete um bêbado que nem forças tinha para se levantar. Intervim! Fui preso juntamente com o ébrio. Julgado sumariamente e condenado a dez dias de prisão; impulso decisivo para consolidar opções e solidificar, para sempre, a revolta consciente.

A personalidade baliza-se por miríades de aparentes pequenos nadas e, assim, aos poucos, vamos construindo a escala de valores que, uma vez assumida, forçoso é cumpri-la. E é neste compromisso que encontramos o nosso próprio equilíbrio.

Sempre recusei partilhar com o carroceiro ou o polícia de então o caminho deslizante para a ignomínia, colocando-me na rampa íngreme e difícil a caminho da justiça e da liberdade.

Hoje, assisto e resisto aos golpes de chicotes-lei, revestidos de pergaminhos democráticos, onde os poderosos zurzem aqueles que lhes puxam a carroça dos cifrões com vocábulos melífluos e, sem escrúpulos nem piedade, tentam impor-lhes caminhos escorregadios atulhados de fraudes, a caminho da burra dos banqueiros.

Em nome da modernidade, dilata-se e aprofunda-se, cada vez mais, o fosso entre os que nada têm e os que tudo açambarcam, a classe média, os pequenos comerciantes, agricultores e industriais junta-se aos assalariados para onde, aos poucos, vão escorregando também as profissões liberais. E todos estes trabalhadores, para que possamos ser competitivos, deverão nivelar salários e direitos, dolorosamente conquistados, pelos dos países onde se trabalha por dez réis de mel coado. E dentro de uma lógica redutora, escabrosa, desumana, para sermos cada vez mais atractivos aos investidores, teremos que nos despojar de tudo o que nos distingue da pobre besta que me fez chorar.

O talentoso Alphonse Daudet, na colectânea de contos reunidos em ‘Lettres de Mon Moulim’ brinda-nos com “La mule du Pape” a qual com ou sem rancor, esperou sete anos para, no local exacto e no momento preciso, usar a única mas poderosa arma que lhe fora concedida: o coice.

Não percamos a esperança; há em cada um de nós a paciência e a força da célebre mula papal, com uma importante diferença: hoje tudo se passa a grande velocidade.

Os carroceiros chegaram ao poder, há que afinar o coice.

É URGENTE!

Cid Simões

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A RAMPA

A pobreza, e a obediência quem a conserva é por força.”

Matias Aires

(Reflexões sobre a vaidade dos homens)

As imagens gravadas a fogo de emoção instalam-se, com tamanho vigor na memória, que delas dificilmente nos podemos libertar:

Calçada íngreme, o macho, atrelado à carroça repleta de pedra tentando conquistar o percurso impossível, as ferraduras sem apoio faiscando, e o animal impotente não conseguia avançar. O carroceiro, dando ao termo o significado mais pejorativo, praguejava e de chibata em riste flagelava, a golpes de raiva incontida, o animal indefeso. Numa tentativa para continuar a marcha, as patas dianteiras fraquejaram, ficando ajoelhado, preso aos varais, como alguém que implora piedade. Celerado, o monstro desce da carroça e com o cabo do chicote descarrega toda a brutalidade sobre o animal prostrado, procurando que o pobre se levante para continuar o calvário, e, porque não o consegue, num paroxismo de barbárie, com ambas as mãos em tenaz, agarra o focinho do macho e morde-o demorada e ferozmente.

Pareceu-me que o animal chorava; eu, que ainda nem sequer frequentava a primária, fugi soluçando. A imagem persegue-me sempre nas horas de injustiça que, na generalidade, se abate sobre os mais fracos.

Passados alguns anos, na primavera da minha juventude, deparo com um polícia que espancava com o cassetete um bêbado que nem forças tinha para se levantar. Intervim! Fui preso juntamente com o ébrio. Julgado sumariamente e condenado a dez dias de prisão; impulso decisivo para consolidar opções e solidificar, para sempre, a revolta consciente.

A personalidade baliza-se por miríades de aparentes pequenos nadas e, assim, aos poucos, vamos construindo a escala de valores que, uma vez assumida, forçoso é cumpri-la. E é neste compromisso que encontramos o nosso próprio equilíbrio.

Sempre recusei partilhar com o carroceiro ou o polícia de então o caminho deslizante para a ignomínia, colocando-me na rampa íngreme e difícil a caminho da justiça e da liberdade.

Hoje, assisto e resisto aos golpes de chicotes-lei, revestidos de pergaminhos democráticos, onde os poderosos zurzem aqueles que lhes puxam a carroça dos cifrões com vocábulos melífluos e, sem escrúpulos nem piedade, tentam impor-lhes caminhos escorregadios atulhados de fraudes, a caminho da burra dos banqueiros.

Em nome da modernidade, dilata-se e aprofunda-se, cada vez mais, o fosso entre os que nada têm e os que tudo açambarcam, a classe média, os pequenos comerciantes, agricultores e industriais junta-se aos assalariados para onde, aos poucos, vão escorregando também as profissões liberais. E todos estes trabalhadores, para que possamos ser competitivos, deverão nivelar salários e direitos, dolorosamente conquistados, pelos dos países onde se trabalha por dez réis de mel coado. E dentro de uma lógica redutora, escabrosa, desumana, para sermos cada vez mais atractivos aos investidores, teremos que nos despojar de tudo o que nos distingue da pobre besta que me fez chorar.

O talentoso Alphonse Daudet, na colectânea de contos reunidos em ‘Lettres de Mon Moulim’ brinda-nos com “La mule du Pape” a qual com ou sem rancor, esperou sete anos para, no local exacto e no momento preciso, usar a única mas poderosa arma que lhe fora concedida: o coice.

Não percamos a esperança; há em cada um de nós a paciência e a força da célebre mula papal, com uma importante diferença: hoje tudo se passa a grande velocidade.

Os carroceiros chegaram ao poder, há que afinar o coice!

Cid Simões

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