“No começo, pensei que estivesse lutando para salvar seringueiras, depois pensei que estava lutando para salvar a floresta amazônica, agora percebo que estou lutando pela humanidade.”
Chico Mendes
Sofia Vilarigues
- http://eco-fenix.blogspot.com -
“No começo, pensei que estivesse lutando para salvar seringueiras, depois pensei que estava lutando para salvar a floresta amazônica, agora percebo que estou lutando pela humanidade.”
Chico Mendes
Sofia Vilarigues
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Não há trabalho nem pão
Mas há circo e palhaçada
Estabeleceu-se a confusão
Foi montada a encenação
Está aí o circo da cambada
Que invadiu a nossa aldeia
E atraíu as nossas gentes
Cantou-lhes como a sereia
Atirou-lhe aos olhos areia
Fazendo deles indigentes
Como escravos dependentes
Desta falsa animação
Tornando-os assim ausentes
Das realidades presentes
Como a fome e a humilhação
É um circo de tristeza
São os palhaços da nação
Que vão acumulando riqueza
Á custa de mais e maior pobreza
Menos trabalho e menos pão.
Tú sózinho não és nada, juntos temos o mundo na mão!
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Não terá sido numa terça-feira nem num dia de Janeiro. Dia de orçamentos foi certamente. Não foi um primeiro-ministro, nem um Ministro de Estado ou outro qualquer que se encontraram à hora do almoço num restaurante, não para jantar, mas para almoçar. Foram antes, três anónimos na casa dos 60 anos que com muita dignidade falavam e comiam, enquanto numa mesa ao lado dois jovens escutavam sem querer.
Os três tragavam o manjar. Um leitão com tamanho de porco e um vinho que lhes aumentava o volume. O primeiro, o corporal e, o segundo, o sonoro. Confirmou-se o poder do álcool quando em alto e a bom som um deles disse “dá-se-lhes a mão pedem logo o pé”, e logo os outros anuíram. O dono do restaurante olhava céptico a tentar medir o tamanho da dignidade da carteira dos senhores. Nós os dois, os jovens, desconfiámos que aquilo era algo connosco. Teríamos sido escutados! Momentos antes falávamos como alguns dos nossos colegas de faculdade tiveram que adiar – eufemismo para desistir – dos estudos aquando do aumento das propinas para quase os 999€, falávamos como muitos dos nossos amigos continuavam desempregados ou a entregar-se a trabalhos temporários e precários como os call-centers apesar de licenciados e adiando – eufemismo para desistir? – sair da casa dos pais… No fundo, entre outros desabafos e acusações, constatávamos o paradoxo duma sociedade que nunca antes gerara tanta riqueza mas que impossibilita uma vida melhor às mais recentes gerações.
Voltamos a concentrar-nos no que estávamos a fazer naquele restaurante: a estudar. O almoço ali era um adereço para evitarmos perder volume corporal. Não era leitão e vinho, mas um bitoque com muito molho e batata frita, e mais uma exagerada quantidade de ketchup para disfarçar o sabor acre da matemática escalfada. Duma sebenta, líamos o teorema que define que o limite do produto duma função limitada e um infinitesimal é infinito. Por outras palavras, uma coisa tão pequenina que tende para zero a multiplicar por algo determinado como o número 999 tende para infinito! Entre os integrais, séries e teoremas, a comida no prato tendeu para zero tal como uma função infinitesimal, enquanto na mesa ao lado crescia inversamente proporcional por cima da travessa uma pirâmide de ossos do ex-leitão. Os senhores, apesar de nenhum ser ministro ou apenas primeiro-ministro, pareciam abutres em volta do cadáver. Isto, aos nossos olhos, claro. Que à vista dos demais nunca terão perdido a pose digna de quem fala em alto volume por culpa do vinho.
Olhando a ementa das sobremesas notamos que a nossa dignidade tinha que saltar directamente para os cafés. Não comemos sobremesa, mas talvez adocicados pelo cardápio que apreciamos, novamente, o estudo da matemática deu lugar à conversa sobre a vida. Foi então, numa mistura de nonsense e coisas sérias que nos perguntamos quantos quilos de liberdade tinham sido conquistados em Abril de 74? Equivalente a 74 Kg, foi a sarcástica resposta. Como esses quilos têm mingado! Mingam, mas pouco parece fazermos. Parecemos conformados. Já não se vêem lutas estudantis como as de 62, 69 ou de 90. Mas a verdade é que precisamos e queremos um ensino superior gratuito, e cujo financiamento não faça os departamentos das faculdades travarem a progressão escolar por serem financiados proporcionalmente ao numero de alunos que têm, e é preciso uma acção social adequada e “Dá-se-lhes a mão e pedem logo o pé” – isto já era um dos senhores da mesa ao lado. Inflado pelo vinho, rosado pelo calor do álcool, suava o leitão e continuava dizendo “Estas gerações pós 25 de Abril que tiveram o privilégio de nascer em liberdade”, falava muito alto e mau som, “querem mais e sempre muito mais porque se julgam no direito da sua liberdade não ter limites”. O dono do restaurante continuava com olhar céptico tentando medir o tamanho da dignidade da carteira dos senhores.
Caros senhores da mesa ao lado,
Vocês são duma crónica ficcional, mas dizemo-vos que há muito mais liberdade para além dos 74 Kgs, e que também não nos deveremos contentar após os 999 Kgs conquistar. A Liberdade é um processo infinito.
E por favor, apelamos à vossa benevolência e devolvam as ossadas ao dono do restaurante. O que os senhores comeram não era leitão mas a avó dele.
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O Pentágono divulgou o seu orçamento para o ano fiscal de 2011, um orçamento militar dos EUA que, mesmo descontando a inflação, é o maior desde a Segunda Guerra Mundial. O valor inscrito é de 708,2 bilhões dólares, constituído por 548,9 bilhões dólares para a “base” do orçamento, mais 159,3 bilhões dólares para pagar as “operações de emergência no exterior”, principalmente as guerras no Afeganistão e no Iraque, para além da verba de mais US $ 33 bilhões para o orçamento do ano em curso, para pagar os 30.000 soldados extras (e todos os seus suprimentos, armas, etc) que o presidente Obama está a enviar para o Afeganistão. Robert Gates, na apresentação do orçamento ao Congresso, discriminou algumas parcelas dos mencionados 159,3 bilhões dólares para as tais “operações de emergência no exterior”: 89,4 bilhões para as operações, 21,3 bilhões dólares para reparar o equipamento quebrado, 13,6 bilhões dólares para treinar as forças de segurança afegãs e iraquianas, etc.
Segundo o “Office of Management and Budget”, 55 por cento do total do Orçamento dos EUA em 2010 já irá direitinho para os militares. Trata-se não só do maior orçamento militar nacional do mundo como também atinge uma verba tão colossal que deverá mesmo ser superior à soma de todas as despesas militares de todos os restantes países do mundo! E é um crescimento imparável. O orçamento militar de 2010 — o qual não cobre todas as despesas relacionadas com a guerra — chega aos US$680 mil milhões. Em 2009 era de US$651 mil milhões e em 2000 de US$280 mil milhões. Mais do que duplicou em 10 anos.
O Centro para uma Nova Segurança Americana (que está longe de ser uma organização pacifista militante) calcula que, descontando a inflação, esta soma é de 13 por cento superior ao orçamento de defesa “USA” no auge da Guerra da Coreia, 33 por cento mais elevados do que no auge da Guerra do Vietnã , 23 por cento mais elevados do que no auge da Guerra Fria, e 64 por cento superior aos gastos anuais médios no período da Guerra Fria.
Para se ter uma ideia da desproporção de gastos militares do imperialismo estadunidense face aos restantes países, abaixo se publica um quadro comparativo dos 15 países com os maiores gastos militares, referente a 2008 e cujas percentagens que não deverão estar muito alteradas:
Posição País Despesas Militares (em biliões) (%)
1 EUA 607.0 41.5
2 China 84.9 5.8
3 França 65.7 4.5
4 Reino Unido 65.3 4.5
5 Rússia 58.6 4.0
6 Alemanha 46.8 3.2
7 Japão 46.3 3.2
8 Itália 40.6 2.8
9 Arábia Saudita 38.2 2.6
10 Índia 30.0 2.1
11 Coreia do Sul 28.9 2
12 Turquia 25.4 1.8
13 Brasil 25.3 1.8
14 Austrália 20.7 1.4
15 Canadá 18.6 1
Os números do segundo posicionado nesta lista, mesmo sendo um país com a dimensão da China, mostra à evidência o enorme desequilíbrio de gastos militares. Se fizéssemos uma ordenação “per capita” resultaria ainda mais claramente o papel subsidiário do militarismo imperialista desempenhado por grande número destes quinze países, sempre com os “states” na frente e a grandíssima distância dos restantes.
Por estas e por outras é que o défice das contas dos “states” atinge já os 12% do PIB, um número que os levaria à bancarrota – como estão ameaçados vários outros países europeus, pertencentes à U.E. -, se não fosse o seu continuado “expediente” de fabricarem notas sem limite, prática que o sistema capitalista global vai aceitando como boa, tal é o grau de integração sistémica atingido.
Aos EUA o sistema capitalista continua a atribuir o papel de gendarme mundial, usando as suas forças armadas para um novo processo colonizador, estendido aos cinco continentes. Os seus colossais gastos militares asseguram a manutenção de mais de 800 bases militares em 60 países, simultâneamente suportes para a sujeição e submissão política dos países onde se encontram e plataformas de agressão sobre os restantes. As guerras em curso, de ocupação e extermínio de países e povos, são as guerras colonial-imperialistas da presente época, destinadas a assegurar ao capital o roubo das riquezas e recursos económicos dos países agredidos-colonizados, a par da manutenção da sua “ordem” e da sua “democracia”, cada dia mais semelhante a uma nova ordem neo-fascista de âmbito mundial, liquidando liberdades, direitos, independências nacionais, tudo ao serviço de uma feroz intensificação da exploração globalizada dos trabalhadores e dos povos.
Já alguém escreveu, recentemente, que Barak Obama está transformado numa espécie de “power point” do capitalismo contemporâneo. Ainda que interessante, parece-me ser uma designação demasiadamente benévola para o personagem em causa. Propagandeado como o novo “condottiere” mundial, predestinado para fazer grandes mudanças no mundo, os factos vão revelando a sua verdadeira face: o chefe de turno do imperialismo, cada dia mais semelhante ao execrado Bush, ultrapassando-o já pela direita, no suporte de golpes militares fascistas – vidé as Honduras – e na criminosa ocupação militar de novos países – vidé o Haiti. Com Obama, o imperialismo reforça o seu carácter de inimigo n° 1 dos povos em todo o mundo. Urge combatê-lo, em todas as frentes, em defesa da Humanidade ameaçada.
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| Escrito por Miguel Tiago | |
| 01-Jan-2010 |
A Natureza é o substrato do desenvolvimento e o meio em que se desenvolve a luta de classes. É também na relação com os recursos naturais que se trava uma disputa de interesses de classe antagónicos, na medida em que a utilização desses recursos é uma base fundamental da construção da sociedade humana.
A actual fase do capitalismo, de evidente aproximação dos seus limites históricos, tem agravado os impactos da exploração capitalista também no quadro da relação entre as sociedades e a Natureza. A apropriação da produção é acompanhada por uma apropriação directa dos recursos, mercantilizando mesmo os bens ambientais, o que bem demonstra o carácter predatório do sistema capitalista e a urgente necessidade de o ultrapassar, na medida em que a Natureza contém o conjunto de recursos finitos que são fundamentais para o desenvolvimento integrado da Humanidade. O seu esgotamento, ou destruição têm implicações directas sobretudo nas camadas trabalhadoras, tendo em conta a elitização galopante do acesso à qualidade de vida e ambiental. A luta dos trabalhadores e dos comunistas é, por isso mesmo, também uma luta em defesa da preservação e da gestão racional dos recursos naturais, subordinando a sua gestão aos interesses comuns e não à acumulação de lucros.
A actual campanha mediática e política em torno das preocupações ambientais não deve pois passar ao lado das preocupações do Partido, numa abordagem crítica e transformadora. Um dos eixos principais daquilo a que a Resolução Política do XVIII Congresso do PCP descreve como o «dogma ambientalista» é a campanha política em torno das «alterações climáticas». Significará essa nossa análise uma secundarização das preocupações ambientais? Antes pelo contrário, a desmistificação desse «dogma» é a única forma de intervir realmente sobre os problemas que cada vez mais se agudizam na relação capitalismo – Natureza. Esses problemas, traduzidos na delapidação dos recursos e no consequente empobrecimento das camadas trabalhadoras que deles dependem directa ou indirectamente, são fruto de características intrínsecas ao funcionamento do sistema capitalista. Decorre da lei da baixa tendencial da taxa de lucro e das suas contradições internas, a necessidade de o capital (1) continuar permanentemente o seu esforço de expansão – o que é bem sintetizado por Engels quando afirma «[O Capital] tem de permanecer em crescimento e expansão, ou terá de morrer.» (2), permitindo assim a continuidade da sua força motriz: a taxa de lucro. Isso tem implicações muito concretas na gestão de recursos naturais e na sua apropriação, sendo que são, em grande medida, a fonte de toda a matéria-prima ou elementos fundamentais à vida de todos os seres humanos. Nesse caminho de crescimento e acumulação, os bens ambientais tornaram-se mercadorias à luz da perspectiva da classe dominante.
É neste quadro que se torna decisiva a inclusão das questões ambientais na luta de massas e na luta dos trabalhadores. No actual cenário de crise global da economia capitalista, o próprio sistema é confrontado com um momento de decisões críticas em torno dos paradigmas produtivos, económicos e financeiros que sustentam o capitalismo na sua fase de desenvolvimento actual. Depois de ampla e claramente falhada qualquer consequência positiva visível do Protocolo de Quioto, seria de esperar uma reavaliação dos instrumentos de intervenção por parte dos organismos internacionais, nomeadamente da Convenção Quadro para as Alterações Climáticas (UNFCCC), organismo das Nações Unidas. Ao invés disso, a Conferência das Partes dessa Convenção em Copenhaga assume-se como a clara sucessora de Quioto e Bali, mantendo precisamente os mesmos instrumentos, e centrando a intervenção das sociedades humanas nos aspectos meramente financeiros, sem assumir e, mais grave ainda, mascarando a necessidade urgente de proceder a profundas transformações de natureza anticapitalista..
É certo que após a explosão da crise económica e estrutural do capitalismo, muitos são os que falam de «novo paradigma» e de «maior intervenção e regulação» do Sistema, acompanhados dos que supostamente promovem o «novo paradigma energético». No entanto, é revelador que sejam esses os primeiros a dogmatizar o funcionamento da economia capitalista como ponto de partida para qualquer «novo paradigma». Na esteira dos ensaios em torno de «sustentabilidade», «desenvolvimento sustentável» (ver Relatório Brundtland (3)), surgem as novas diversões ideológicas do sistema capitalista orientadas no essencial sempre pelo mesmo objectivo central: permitir a continuidade e aprofundamento da apropriação de mais-valias através da exploração do Trabalho. O equilíbrio em que o capital vai jogando estes novos «trunfos» da ofensiva ideológica é, porém, cada vez mais instável, tendo em conta as flagrantes assimetrias na distribuição dos benefícios tecnológicos, dos recursos naturais e da riqueza produzida.
Chegados a este ponto da História, dos seres humanos e do planeta, torna-se evidente a necessidade de harmonização entre as actividades humanas e a dinâmica da Natureza mas, ainda assim, muitas dúvidas, nomeadamente científicas, persistem sobre as formas e a extensão das influências de cada uma das actividades humanas na Natureza e, particularmente, no clima, sobre o qual recai grande parte do arsenal ideológico do capitalismo. Nesta sua fase de desenvolvimento, no limiar desse «novo paradigma económico e energético», importa essencialmente desmontar as suas contradições inerentes.
No seguimento do Protocolo de Quioto, da criação dos mercados de licenças de emissão de Gases com Efeito Estufa (GEE), das negociações internacionais, surgem novas ofensivas globais que visam essencialmente apropriar a Natureza e o Meio Ambiente como mercadoria e filão de negócios absolutamente incomensuráveis, por um lado e servir de argumento para-científico de chantagem e de diversão ideológica, por outro. O sistema capitalista busca agora em cenários de alterações climáticas (depois de «aquecimento global» se ter revelado um termo equívoco) o elemento de distracção sobre os reais problemas que se colocam no plano político e económico-social. A solução para os problemas da relação entre o ser humano e a Natureza não reside em alterações de fachada no sistema, mas sim na ruptura radical com o próprio funcionamento do sistema, superando-o historicamente.
A comunicação social tem desempenhado um papel fundamental na difusão de um dogma ambientalista que, não funcionando como argumento em si mesmo, é revelador das pressões que existem para a criação de uma cultura supostamente científica em torno de um alarmismo e histeria que é contraditada por dúvidas e outros estudos científicos convenientemente escondidos pela comunicação social dominante. É importante ter a consciência de que a Investigação Científica é também um processo social, sujeito a instrumentalização pela classe dominante. Não é descartável o facto de existirem estudos diversos que não reconhecem existência de relação causa-efeito entre a concentração atmosférica de CO2 e a temperatura à superfície da Terra, da mesma forma que devemos ter presente a evidência segura de muitas variações climáticas ao longo da história do planeta, determinadas por factores muito diversos. No que toca ao Árctico, por exemplo, o actual alarmismo deve ser questionado quando olhamos para a série de dados que retrata os mínimos de área de mar gelado e verificamos que não existe uma tendência tão alarmante quanto isso, sendo que o mínimo de 2007 (cerca de 4.200.000 km2) é bem inferior ao mínimo de 2009 (5.249.844 km2)(4). Na verdade, muitos outros dados apontam para uma variabilidade climática do planeta muito significativa ao longo da sua história de mais de 4,6 mil milhões de anos, sem qualquer ligação que comprove dependência relativa às concentrações de CO2.
A climatologia e a paleo-climatologia não são propriamente ciências simplistas como se tem vindo a tentar fazer crer e não se compadecem com modelações baseadas em «regras de três simples» tão elementares quanto as que deram origem à tese ultrapassada do aquecimento global em «hockey-stick» (a primeira hipótese de subida de temperatura quase como se fosse directamente proporcional às concentrações atmosféricas de CO2). É também urgente denunciar que, ao contrário do que se assume muitas vezes publicamente, o IPCC (Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas) – ainda que constituído por uma vasta rede de investigadores – não é um organismo científico, mas político, do qual não resultam necessariamente conclusões científicas na verdadeira acepção do conceito, ou seja, os relatórios finais do IPCC não são alvo de avaliação independente nem sujeitos a confronto em testes experimentais, como se exige a qualquer trabalho científico para ser validado.
A mercantilização dos bens ambientais, a diversão ideológica, o branqueamento das responsabilidades de classe são todos efeitos directos da histeria de massas que se pretende agudizar com a generalização do «dogma».
É, por exemplo, paradoxal que mesmo quando os custos de produção energética são menores cresçam os seus custos finais. Essa relação entre custos de produção e preço revela bem o inquantificável aumento de lucro que as companhias de produção energética obtêm da chantagem ambientalista, importante componente desse aumento de preço, aliada obviamente à pressão especulativa que controla todo o mercado dos combustíveis fósseis com repercussões nos custos da produção e distribuição de energia final. A alteração de «paradigma económico e energético» de que a classe dominante tanto fala é, no essencial, resumida a um conjunto de alterações na produção, mas mantendo perfeitamente intocada a matriz que reside, não na produção mas na organização e posse dos meios de produção, ou seja, no modo de produção. O que está hoje em causa é mais do que saber se a energia pode ou não ser obtida de fontes renováveis e limpas, mas sim até que ponto o capital se apropria da produção energética proveniente dessas fontes. O grau de apropriação capitalista determinará o grau de utilização dessas fontes e dessas tecnologias e é essa barreira que os trabalhadores de todo o mundo devem vencer, sob pena de subsistir, não apenas a injustiça inerente à exploração capitalista, mas também a delapidação da Natureza e dos seus recursos na medida em que constituem, não recursos económicos comuns, mas apenas mercadorias a valorizar e a gerar lucro.
O mecanismo subjacente ao Protocolo de Quioto e, ao que tudo indica, ao futuro de Copenhaga está longe de ser uma solução para a diminuição da emissão de GEE, mas poderá vir a ser, sem dúvida, um dos mais importantes mercados da actualidade, na medida em que a bolsa de carbono poderá representar a curto prazo um mercado de mais de 700 mil milhões de dólares. Não podemos ignorar que a constituição de uma bolsa de licenças de emissão significa a transferência de riqueza entre diferentes sectores sociais e produtivos, bem como o aumento dos custos do consumo da energia, através da transferência de custos em torno de mecanismos não produtivos (como a transacção em bolsa de licenças de emissões) para o consumidor.
Com esta política, não só se escamoteiam as reais responsabilidades de classe, como se dão os primeiros passos para a privatização dos recursos atmosféricos, como é o ar que respiramos. É absolutamente inaceitável que a resposta a uma hipotética influência antropogénica no clima seja resolvida com a privatização da atmosfera. Com essa estratégia o capital também encobre os mais graves impactos da poluição atmosférica, que são bastante mais vastos que os que se crêem existir sobre o clima, nomeadamente no que toca à saúde, aos equilíbrios ecológicos, à qualidade das águas e do ar. Pretende a classe dominante que se ignore que o uso dos solos, as impermeabilizações, as desflorestações, a desertificação, são causas muito significativas no que toca às transferências de calor entre atmosfera, geosfera e Sol, assim contribuindo também para a agudização de fenómenos climáticos extremos.
Abordar as «alterações climáticas» deve, da nossa parte, ser uma tarefa de capital importância desde que desvendemos desde já as «armadilhas ideológicas» que estão montadas na tese catastorfista e da sua origem antropogénica.
A encruzilhada em que a Humanidade se encontra é a que resulta das limitações históricas do capitalismo e que serão apenas solucionadas pelo poder criativo dos homens e das mulheres, superando a forma de organização social, económica e política do capitalismo e capitalizando todos os meios já hoje disponíveis e os que mais possamos desenvolver no caminho da luta para substituir o capitalismo pelo socialismo, rumo ao comunismo. Não será outra senão essa a resposta que os trabalhadores poderão dar aos grandes problemas que hoje se nos colocam. É essencial, pois, colocar a discussão da relação do Humanidade com a Natureza no espaço a que pertence: no espaço da luta de classes e da disputa do poder político e da posse dos bens e recursos naturais, com a plena consciência de que só o socialismo poderá criar as condições para a construção de uma relação harmoniosa entre a Humanidade e a Natureza.
Notas
(1) Marx, Karl – O Capital, Vol III, Livro III, Capítulo XV.
(2) Engels, Friederich – Prefácio à Segunda Edição Alemã (1892) de «A situação da Classe Trabalhadora em Inglaterra» (1845).
(3) Relatório da ONU, sob o título «O Nosso Futuro Comum, onde se define pela primeira vez o conceito de «desenvolvimento sustentável».
(4) De acordo com os dados IARC (International Arctic Research Center) – JAXA (Japanese Aeorospace Exploration Agency), com análise de dados no IJIS (sistema de computação da IARC-JAXA), disponíveis em http://www.ijis.iarc.uaf.edu/en/data/index.htm e http://www.ijis.iarc.uaf.edu/en/home/seaice_extent.htm
“O Militante” – 304 – Jan/Fev 2010
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Em homenagem ao povo cubano que festejou mais um
aniversário da sua revolução.
Uma jovem italiana, confirmei; vivendo em Londres, disseram-me; deitada de costas na mesa de recuperação, observa através da estrutura vidrada do ginásio, uma ave imponente que se destacava nos céus de Havana: A aura tiñosa.
Apercebi-me da “provocação” nas lágrimas que lhe deslizavam pela face e se perdiam nos cabelos. A aura, além de evidenciar as nossas limitações, alertava-nos para as humanas fragilidades, remetendo-nos ainda para a reflexão em nós tão pouco frequente, principalmente quando tudo nos corre de feição.
Um acidente de aviação, avião particular em que se deslocava de Londres para Espanha onde ia assistir a uma festa – gente abastada, obviamente – deixou-a presa a uma cadeira de rodas. E porque recursos não lhe faltavam, de uma clínica em França transita para uma outra na Suíça onde os meios técnico-científicos são, forçosamente, o que há de mais moderno, ou não fosse terra de bancos ajoujados, em que o dinheiro sujo, ou melhor dizendo, manchado se sangue, espalha o aparente bem-estar.
Nada lhe falta! e no entanto… a tristeza, o desalento, o esboroar de sonhos em construção, transbordava pelo rosto suave dessa jovem de vinte e um anos.
Na estéril, fria e daqui longínqua Suíça, com todos os bens materiais que o mais exigente ser humano pode ambicionar, não foi possível comprar um simples sorriso, nesse país de afectos esterilizados, onde a alegria desde há muito repousa em frascos de formol.
Via-a chegar: pálida, frágil como uma pequena ave apanhada pela refrega. Observo-a: distante como que pelo absurdo a paraplegia não lhe dissesse respeito; faz os movimentos de recuperação sem interesse, mais: que os outros os façam por ela. O trauma está bem vivo. Na acética, austera e formal Suíça, repetiram-lhe vezes sem conta: a sua vida vai ser na cadeira de rodas, adapte-se, e, já agora, digo eu, não se esqueça de deixar na caixa os mil e duzentos euros por dia.
Veio para Cuba. A Beatriz, profissional competente e atenta tanto ao estado de saúde física como psíquica da paciente que lhe foi indicado recuperar, vai cumprindo os exercícios que lhe deve ministrar e, conversando naturalmente, como se estivesse, e estava fazendo o que há demais natural, não retém a gargalhada oportuna, nem se inibe do dichote ou da conversa brejeira com uma jovem de Porto Rico com patologia semelhante, mas determinada.
O ambiente é cordial e a música cubana não deixa ninguém indiferente, envolvendo todos, mesmo os de esperança adiada. A recuperação da jovem italiana é lenta a todos os níveis e, sendo embora difícil extrair-lhe o esboço de um sorriso, timidamente o semblante descontrai-se abrindo-lhe o caminho.
A “salsa” dá o ritmo a uma nova vida, dos Helvéticos fica a recordação do silêncio, de o tudo recheado de nada, das luzes reflectidas no aço inoxidável que nos transportam para os filmes de ficção científica.
O sol entra pelas vidraças do ginásio e acumulado que está no espírito desta gente, aquece o ambiente e os espíritos, distribuindo alegria e alento, húmus onde cresce a esperança.
O dia de hoje é de festa: ela mexeu um dedo de um dos pés! O pai, neurocirurgião italiano, veio visitá-la; dez minutos, visita de médico. Ninguém poderá determinar até onde irá a recuperação; entretanto a confiança começa a ocupar o seu espaço para que a existência tenha sentido.
Observo-a de novo: de regresso ao ginásio, ânimo revigorado, aflora o primeiro sorriso; na mesa dos exercícios tenta esforçar-se; um negro gingão, fisioterapeuta também, acaba de chegar e dá-lhe um beijo. A naturalidade e a fraternidade entrelaçam-se, não há doentes nem sãos, pretos ou brancos, ricos ou pobres, há a participação técnica e afectiva de todos no esforço comum para encontrar os caminhos da vida.
E já nesse caminho, vereda ainda, ouve-se música, trabalha-se e, para os casos mais extremos ou para os que requerem menos cuidados a atenção não difere.
Só a aura tiñosa ensombra os céus de Cuba. Misto de ave de rapina e abutre, mantém-se atenta á mais pequena falha ou a qualquer movimento descuidado da sua potencial vítima. Além do mais os abutres não suportam a alegria dos povos, irrita-os a cultura e o saber, componentes essenciais da liberdade.
O vizinho tinhoso mudou de abutre mas não desarma, gasta biliões de biliões em armamento sob o olhar perplexo de biliões de famintos.
O povo cubano resiste, e esta luz que tudo esclarece, provavelmente encandeia de tal modo que obstrui a realidade.
Cid Simões
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Antes de o chão tremer as Naus de Cristovão Colombo chegaram lá e baptizaram aquela ilha de Espanhola, não tinha ouro, nem pedras, nem homens e mulheres para escravizar, isso foi depois, quando outras Naus traziam homens e mulheres das costas Africanas e ali ficavam, a cultivar cana de açúcar, debaixo de um chicote. Ainda antes que o chão tremesse a ilha foi dividida em duas, metade de um colonizador, metade de outro, como se assim se pudesse dividir coisas como ilhas e gentes, mar e árvores, mas assim foi.
Quando o colonizador de metade da ilha decidiu fazer uma revolução, o povo da daquela metade homens e mulheres escravizados, acharam que poderiam fazer o mesmo e gritar “Igualdade, Liberdade e Fraternidade”, assim fizeram, os Libertários colonizadores não gostaram, mas o Haiti tornou-se uma nação, talvez a primeira nação negra da história. Depois, ainda a terra não tinha tremido houve muita coisa, por exemplo em 1915 entraram outros invasores, dos Estados Unidos da América, que só se foram embora em 1934, há um golpe militar e de 1956 a 1986, o que cresce é fome, miséria e medo, mas a terra continuou quieta, mudaram os actores mas o medo, miséria e a fome, claro, continuam instaladas, chegam homens de capacetes azuis, ajudas alimentares, há linchamentos, furacões e cheias. Há crianças dadas a outras famílias em troca de alojamento com oferta de trabalho gratuito, há outras crianças espalhadas por todo o mundo e redes de adopção por vezes estranhas, naquela metade da ilha há poucas árvores, a sua madeira é o combustível dos pobres, há gangs, gente que mata por dá cá aquela palha, há uma espécie de casas, pouco seguras construídas com lixo, tábuas, plásticos e ali vivem a maior parte das gentes daquela metade de ilha, uma pequena parte vive em palácios, a maior parte das pessoas são dos pobres mais pobres do mundo, fazem pão com uma espécie de serradura em vez de farinha, estão vazios, com a fome e falta de esperança.
Depois a terra cansou-se e tremeu! E agora que a terra tremeu talvez se possa mudar?!
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Ariobaldo de Oliveira, geógrafo, denuncia que a FAO compra maciçamente o excedente dos países europeus e norte-americanos e lança-os em África, na Ásia e na América Latina, destruindo os mercados locais, os agricultores locais, que não conseguem competir com esses alimentos subsidiados. A própria Care International denunciou esta situação.
Eu sei bem, em questões humanitárias, quão perverso é, para os mercados locais, quando milhares de toneladas de cereais chegam ao mercado e fazem que os agricultores locais, perante tamanha oferta gratuita, já não possam escoar os seus produtos nesses mercados. As instituições humanitárias muitas vezes estão armadilhadas, sobretudo quando beneficiam de financiamentos de grandes aglomerados internacionais – refiro-me à União Europeia. A União Europeia até há bem pouco tempo exigia que os alimentos que iam para as ajudas humanitárias fossem comprados no mercado europeu. Isso era uma maneira de escoarmos excedentes, fossem viaturas, fossem medicamentos.
O que lhe posso garantir hoje é que nesta casa, a AMI, trabalhamos essencialmente com fundos próprios ou com fundos de particulares. Quando em 1998, tivemos uma intervenção de emergência na Guiné-Bissau, eu parti de imediato para Dakar onde temos um parceiro para projectos de desenvolvimento local. Com esse nosso parceiro fui ao mercado de Dakar e durante um dia inteiro andámos nos vendedores locais, a comprar farinha, arroz, açúcar, leite em pó. Tudo foi comprado no mercado local de Dakar. E posso garantir que o camião de 20 toneladas que saiu de Dakar e entrou na Guiné-Bissau depois de 600 km a circundar a Gâmbia foi todo carregado de produtos comprados no mercado local de Dakar.
Lembra-se do Live Aid, de ajuda à Etiópia? Alex de Waal, em Famine Crimes, demonstra que o Live Aid acabou por prolongar a fome na Etiópia.
A ajuda alimentar quando não controlada até à pessoa pela instituição que angaria o apoio tem um destino perverso. Na Etiópia a ajuda alimentar era dada se as populações aceitassem o Governo. É uma situação pertinente em que as Associações Humanitárias cada vez mais têm de pensar. Estamos perante situações de uma necessidade aguda. E os alimentos são uma arma poderosíssima.
Mesmo que eles não desviem alimentos, a ajuda humanitária acaba sempre por pôr em causa a agricultura local.
Sempre. O que é preciso é ferramentas agrícolas necessárias para que o ciclo produtivo e de autoabastecimento se possa restabelecer.
Adam Smith dizia que um povo não pode ser independente sem soberania alimentar. Cito Adam Smith e não Karl Marx. O Movimento dos Sem Terra no Brasil diz que não precisa de alimentos, precisa de desenvolver a agricultura, exige uma reforma agrária, tractores, um mercado industrial interno.
O argumento está certo, mas estamos a falar de um Brasil que tem mercado por si só. Para a maioria dos países com mercados muito mais pequeninos é essencial a possibilidade de exportar para haver organização agrária. Quando se é um país como a Índia, a China ou o Brasil, tem-se um mercado interno para a fase de arranque da tal reforma agrária, mas também só numa primeira fase. Hoje a competição no Mundo entre os países mais débeis e os mais desenvolvidos é uma corrida que eu comparo muitas vezes com um perneta a competir com um campeão olímpico em 100 metros, um campeão olímpico dopado ainda por cima!
Porque é que a Índia recusou a ajuda alimentar depois do tsunami?
Quando há um descarrilamento ou uma inundação, a comunicação social cai-me imediatamente em cima para saber se a AMI vai a correr para a Índia e eu respondo que eles não estão bem a ver o que é a Índia. A Índia não precisa de uma AMI para fazer face a uma calamidade dessas.
Na altura a Índia veio denunciar que em troca da ajuda humanitária os países exigiam liberalizações do mercado.
É evidente! O drama também está aí! Como também lhe posso dizer que é o que está em causa com as ONGs. Por exemplos se os Camarões não aceitassem a entrada das ONGs a ajuda bilateral era imediatamente suspensa. Nós sabemos que há mecanismos de pressão para que os países mais frágeis deixem entrar nos mercados certos produtos, mesmo quando não os querem.
O economista José Martins, da UNICAMP, diz que o facto de o Estado ter investido agora dinheiro nos activos «tóxicos» dos bancos vai fazer que, a curto prazo, diminua a produção agrícola, porque o Estado investe uma parte do dinheiro a comprar excedente e vai deixar de o fazer. Muitos agricultores vão deixar de produzir alimentos.
Não tenho dúvidas em relação a isso. Ele é economista, eu sou médico. Agora também lhe digo que os Estados hoje são extremamente frágeis, não perante a economia, mas perante a alta finança, perante este cataclismo anunciado.
O mesmo economista diz que estamos em risco de ter uma crise grave no crédito público.
Se estiver com uma pneumonia e estiver com um febrão e tomar aspirina vai fazer baixar a temperatura. Agora se não lhe der o antibiótico adequado, vai chegar o dia, em poucos dias, em que a infecção se espalha, há uma septicemia, uma infecção generalizada do corpo. Isto é uma metáfora médica, mas aplica-se também à sociedade. Não são aspirinas que vão resolver a questão. E o problema da questão é que os Estados sofreram com essa desregulamentação que foi imposta pelo mercado. Agora, privatizam-se os lucros e estatizam-se as perdas.
O socialismo dos ricos, como alguém já disse…
E estamos hoje perante uma armadilha. E até o sistema voltar a ser desarmadilhado vai haver um custo altíssimo. O Estado não se mostra exemplar na punição dos prevaricadores. Tem que se dar o exemplo de sanidade e salubridade pública, porque se não o povo tira as suas conclusões. Ainda há pouco tempo tive conhecimento da história de uma senhora que foi parar à prisão porque roubou numa loja um boião de creme para a pele para uma doença que tinha. Agora se alguém rouba um creme para a cara é um ladrão, é apanhado em flagrante e corre o risco de passar nem que seja uma semana ou 48 hora na prisão. Mas alguém que desvia dezenas de milhões de euros, que faz uma gestão danosa, ainda recebe um bónus.
Segundo a FAO, no ano passado, mais de 100 milhões de pessoas entraram para o grupo dos que passam fome.
Infelizmente esses 100 milhões de novos pobres não se situam apenas nos países menos avançados ou em vias de desenvolvimento. Muito recentemente foi sabido que esta crise também está a afectar muito directamente cerca de 1800 mil norte-americanos, que são obrigados a deixar as suas casas e a viver nos seus carros, em roulottes, debaixo das pontes. Claro que os mais frágeis dos países mais frágeis ainda mais gravemente são atingidos, não nos iludamos.
Segundo Josué de Castro, em 1960 havia 80 milhões de pobres. Hoje há 800 milhões e ele já na altura anunciava que a fome não é uma inevitabilidade, que o problema não tem a ver com superpopulação, mas com determinadas relações sociais.
Leio com muita atenção os livros que publicou na altura, como a Geopolítica da Fome. Ele foi director-geral da FAO. O que este Planeta tem gerado em termos agrícolas dava perfeitamente para nutrir pelo menos 13 a 14 mil milhões de pessoas. Ora nós somos um pouco mais de 6 mil milhões. A fome deve-se a questões estruturais, muito profundas, de comércio justo, que não existe. Deixe-me só dizer-lhe isto: se em 1960 se falava de um fosso Norte/Sul que estava avaliado, na altura, num produto per capita, no Norte, de 5 mil dólares, e no Sul, de 400 dólares, hoje, no Norte estamos a 25 mil dólares e cerca de 350/400 dólares ou menos no Sul. Não é por um país como Angola ter um crescimento de dois dígitos que isso significa automaticamente minorar a pobreza nesse país, se a riqueza não for redistribuída harmoniosamente pela sua população.
Tenho este número impressionante: os lucros da Monsanto, em plena crise, duplicaram, de 339 milhões para 700 milhões de euros, num ano.
Nós sabemos qual foi o aumento e a especulação que foi posta no mercado dos alimentos. Repare, todos os gestores das grandes empresas sabem melhor do que eu onde é que devem investir. Como nós todos fisiologicamente precisamos dos alimentos para sobreviver é sempre um investimento seguro. É assombroso termos visto em simultâneo a derrocada de um sistema financeiro e, em paralelo a esse movimento, os lucros obscenos que daí decorreram. Guardo a este respeito uma imagem muito nítida. Eu estava no Afeganistão na altura em que os países do Sudeste Asiático decidiram não exportar mais arroz e o Paquistão decidiu guardar a farinha toda. Quando eu ia a sair do Afeganistão para entrar no Paquistão, por estrada, observei que a fronteira tinha acabado se ser encerrada naquele momento, porque os pais tinham mandado os seus filhos para o outro lado da fronteira para poderem passar saquinhos com dois quilos de farinha. E no momento em que eu estava a chegar à fronteira, um guarda paquistanês – eles andavam com umas varas de bambu a tentar fustigar os miúdos que tentavam passar com os saquitos de farinha –, tinha empurrado para debaixo de um carro uma menina de oito anos, que morreu logo. Havia uma tensão enorme na fronteira. O preço do pão no Afeganistão, onde eu estava, tinha aumentado 120%. Lucro e depois fome. É preciso estar nos sítios para perceber como esses números obscenos, que citou, se repercutem na vida das pessoas.
Há vários historiados e economistas, como Immanuel Wallerstein, que dizem que nós devíamos recuperar o conceito de países periféricos ou semiperiféricos, ou seja, que só há uma economia global, que não há esta coisa de patamares de desenvolvimento, que uns hão-de alcançar os outros. Não há primeiro, segundo ou terceiro mundo, e os pobres são-no por causa da política dos países centrais.
Estamos a usar um eufemismo para dizer o mesmo. É um jogo de palavras. Na ajuda humanitária falávamos de países subdesenvolvidos, depois começou-se a falar dos países em vias de desenvolvimento e agora já se fala dos países menos avançados. Mas o facto é que os países menos avançados em 25 anos quase duplicaram, passam de 27 para 49, só um saiu, mas veja os que entraram. Só há um mercado global, sim. Mas não há só pressões económicas, não vamos ser ingénuos, há pressões políticas e militares. Permita que lhe fale, porque isso ainda hoje é tabu, mas toda a gente sabe que foi assim: nas décadas de 60, 70, 80, houve os chamados mecenatos económicos. Eram economistas, pessoas muito inteligentes, mandados por empresas para fazerem estudos de mercado e de desenvolvimento falseados, que apontassem para desenvolvimentos estrondosos. Na base desses estudos falsos e falsificados, essas empresas garantiam colossais empréstimos juntos dos grandes grupos financiadores, sabendo de antemão que os países nunca poderiam pagar os empréstimos que estavam a fazer, iam endividar-se ao ponto que estamos hoje em que não conseguem pagar a dívida, pagam os juros dos juros da dívida, para que esses países que julgavam que se tinham tornado independentes rapidamente ficassem asfixiados. Mesmo nas votações das Nações Unidas basta esticar um pouco mais a corda e eles têm que votar em função dos interesses globais instalados. Não vamos ter ilusões. Acho que há soluções, mas o sistema tal e qual ele está estruturado hoje faz que esses países fiquem para trás. Oitenta por cento dessa dívida foi investida na compra dos líderes corruptos que governavam esses países. Exemplo concreto das armas, o genocídio no Ruanda em 1994 deu-se em grande parte devido à importação de 500 mil catanas na véspera do genocídio. O Governo da altura, que mandou vir as catanas e se endividou para comprar tamanho volume de catanas, ninguém se perguntou o que ia fazer com 500 mil catanas naquele país, assim de repente.
Agora é surpreendente que quando foi a Cimeira EU/África, todos os líderes europeus falavam da corrupção em África, mas nenhum dizia quantos líderes corruptos lá foram postos pela Europa…
Evidentemente, esse é o tal cinismo das relações globais. Na altura dessa cimeira eu estava em África, no Mali. Da janela do meu hotel via um banco e ao lado uma enorme lixeira onde andam pessoas a catar o lixo. Quando houve a Cimeira do Milénio, o objectivo era que os países mais avançados, ditos civilizados, fizessem que 0,7% do nosso PIB fosse investido em acções de desenvolvimento. Na altura estávamos a 0,33%, hoje estamos a 0,28%. Mas em vez de tentarmos chegar aos 0,7% diminui-se de 0,33% para 0,28%.
Mas a Cimeira do Milénio também surgiu nessa altura para responder a uma onda de mobilizações europeias de pessoas que exigiam o fim deste drama humano…
Infelizmente, como sabe, um ano depois deu-se o 11 de Setembro, e deixou-se de falar de desenvolvimento, para se passar a falar única e exclusivamente de combate ao terrorismo. Desde o início da guerra do Iraque já se terá gasto um trilião de dólares, quer dizer, três vezes o que seria necessário, segundo os cálculos das Nações Unidas, para podermos atingir os 8 objectivos da Cimeira do Milénio em 15 anos. É evidente que isso não foi conseguido. Agora o que eu digo muitas vezes é que se não for em nome do humanismo façam-no em nome da inteligência. Porque eu não tenho a mínima dúvida… Os pobres ainda estão calados, ainda falam em surdina. As grandes revoluções mundiais foram sempre imprevisíveis. Eu só percebi como é que o Irão, com o poder militar que tinha, caiu como um castelo quando atravessei o país todo de carro. Os iranianos que eu conhecia em Bruxelas eram a elite educada. Mas depois de ter atravessado o Irão de Norte a Sul de carro percebi como é que o Ayatollah tinha força. Quando as populações se levantam em massa não há poder militar que lhes resista, a menos que se aceite e tenha a coragem de matar milhares e milhares de pessoas.
Quando se fez aquele programa no Iraque de troca de alimentos por combustível, 5 anos depois a UNICEF publicou um relatório arrasador. O programa tinha provocado perto de 2 milhões de mortes, dos quais 500 mil crianças. Eu estive no Iraque a convite do Crescente Vermelho, mas na altura Madeleine Albright, confrontada com esse número arrasador da UNICEF, teve esta resposta: «É pena, mas não há nada a fazer.» Mas se fossem os filhos ou os netos dela talvez houvesse alguma coisa a fazer.
Andamos tanto a reivindicar um humanismo europeu, mas chamamos e expulsamos imigrantes conforme precisamos de mão-de-obra, como se de bananas se tratasse.
A União Europeia está a elaborar uma legislação de imigração selectiva. Queremos quais? Queremos os quadros. Vamos contratar médicos no Paquistão, no Uruguai, em África… Vamos então sugar os quadros de países onde eles são indispensáveis para o seu próprio desenvolvimento. Que Europa é esta? Dos valores? Das trocas equilibradas? Estamos perante um fenómeno assustador.
Alfredo Poeiras
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